26 de fevereiro de 2019

registro

aproveitou o silêncio da sala praticamente vazia e saiu determinada. acabou, enfim, ufa. viu o céu azul e o sol lá em cima ainda, brilhando amarelo, e respirou aliviada. ai, como é bom estar do lado de fora de vez em quando. caminhou ladeira a cima. ninguém fala nesse lugar. parecia que a cabeça ia explodir e lá dentro alguém gritava, alguém que nem ela, com a mesma voz, as mesmas palavras. é, definitivamente algo precisa mudar. ascendeu um baseado. nessas horas fica difícil entender as pessoas que não fumam, sinceramente. como elas fazem? como faz pra parar de pensar? viu o dia indo. o sol foi ficando suave. era bom caminhar sem parar. passou pelo ponto de ônibus, resolveu seguir caminhando mais um pouco. fim de tarde, lá se foi amarelo alaranjado ele entre os prédios da cidade cinza colorida em pleno verão, trinta e tantos, todos os dias, e o som eterno do ventilador e das fotos na parede balançando. ela começou o ano meio sem saber de muita coisa e ao mesmo tempo querendo um tanto tudo que assim, bem rápido, muito aconteceu em pouco tempo. a vida foi tomando um rumo, dentre todas as possibilidades, ela escolheu. ou aconteceu. nem sempre a gente escolhe, as vezes a vida vai levando pra um lado e quando a gente vê: foi. eu nunca fui mulher de ser levada. eu nunca fui mulher de uma pessoa só por muito tempo. eu sempre fui dona de mim e meio confusa nos quereres. eu sempre quis mais. eu sempre quis o que eu não tenho. eu tenho uma conjunção astrológica de planetas um pouco complicada. é carência curiosidade e liberdade de mais, tudo muito, tudo explode. escorre o sangue entre as pernas assim de repente um pouco antes do esperado, escorre a lágrima salgada em plena fila do embarque do avião. eu sou a pessoa que chora em qualquer lugar e que se deixa ver sem medo. não que eu queira, não que eu faça questão que vejam, simplesmente escorre, os olhos se enchem de lágrimas e quando eu vejo lá estou eu: transparente, transbordando, me mostrando frágil pra todos esses fortes que me olham.




eu sou menina velha, sensível de mais as vezes.

8 de novembro de 2018

dos silêncios cheios de palavras

isso é um padrão?


ela tem muitas palavras em silêncio e pouco tempo livre pra pensar. ela era pequena, foi crescendo, explodiu, virou flor. não. não era isso. peraí. vontade de transar.


cansaço misturado com tesão, nada a ver. que isso? que passa?

onde foi que ela se perdeu dessa vez?

tá tudo certo e também não tá, tá tudo errado, virado, quadrado, vazio, estupefato, pros lados do horror, absurdo, do medo, de tudo, tu acabou com o meu coração, de novo o medo de nada acontecer em vão - que vá! e voa, pra longe, te quero do lado de lá. saudades, porra. cadê você?

não.

as palavras tem saído difícil, sem nexo, sem saber ao certo o que querem. eu me sinto mulher forte, mulher destruída, vencida, tentando aos poucos se reerguer e juntar os cacos. 

parece dramático. soa um pouco exagerado.

e, é.

e sendo se torna: de fato.

não, eu sei que nada disso faz sentido. talvez demore pra fazer um dia, e talvez nunca faça.

aceito o momento.

te mando um beijo de tchau.

te deixo ir.

me deixa voar...





14 de setembro de 2018

as palavras que eu nunca te disse

eu sou a mulher que chora em silêncio no banco do ônibus. a menina com medo de amar. a pequena gota de suor que escorre em baixo do seio. eu sou você ontem. eu sou eu amanhã. eu sou a mulher que você esconde. eu sou o olhar perdido de quem não sabe mais o que esperar. a voz rouca de quem cansou de falar. o peito que explode, a respiração que falta. o corpo que grita, as pernas bambas, a vontade saindo por todos os poros, cantos e buracos. não. eu não sou você. não. eu não queria te querer. mas sim, você me tem por inteira, você faz o que quiser comigo. eu sou a mulher fácil, a que diz sempre sim, a que chora escondida enquanto sorri espontaneamente. eu sou a alegria, o sol, o carnaval. eu sou a boba que acredita, que vive, que se declara, que abre o coração e se entrega assim: nua e crua. eu não sou você. eu falo, eu explodo, eu falo. eu tô aqui, você me vê? você se coloca no meu lugar? você tem ideia do que eu sinto? 

mentiras sinceras me interessam.

9 de julho de 2018

sinto o balanço

sinto o balanço do barco, como se eu ainda estivesse em alto mar. 
sinto a mulher forte brotando, lá de dentro, lá do fundo.
ouço uma gargalhada leve, um suspiro, um riso bom.
sinto os pelos arrepiando, a respiração ficando intensa.
estrala os dedos.
sente frio nos pés, sente medo.
sente a menina apaixonada olhar pro lado pra ter certeza se é com ela mesma.
vejo os olhos brilharem, vejo os olhos brilharem!
sinto a tua mão em mim, quente.
escorregando pelo meu corpo, passando por todos os cantos, descendo
pelas 
coxas
por
baixo 
da 
saia
os 
dedos
ai
os 
dedos!

é sempre difícil não me perder em pensamentos maliciosos com você.

24 de junho de 2018

viagens, rascunhos, pra não perder a palavra.

18 de junho - férias

Primeiro dia, no céu. De um lado a lua crescente, lá em baixo o oceano, quase chegando no outro continente. Ela assiste desenhos animados porque o mundo das crianças sempre lhe pareceu mais interessante. Depois, enquanto o sono não vem, o sono que talvez nem venha, ela assiste Pocahontas na esperança de entender a criança que tinha uma índia como personagem favorito e de repente faz sentido tudo o que ela se tornou. Pocahontas ia com o vento, para onde ele lhe levasse. Corajosa, queria mais, era leve. Eu vejo a Betânia de ontem aqui, a Betânia criança, hoje, ainda vive. Que bom! Que bom que ela não morreu junto com tanta coisa que a gente perde no caminho. Apaixonada, com o brilho nos olhos, o sorriso fácil e as lágrimas que escorrem sem parar e lhe molham o rosto rosado. Eu sinto, eu vivo, eu sou eu cada vez mais e como é bom poder ser o que eu quiser! Como é bom sentir, como é bom chorar, como é bom sorrir! Estou viva!

O que eu gosto no rio é que ele nunca permanece no mesmo lugar.

Não nada irá nesse mundo apagar o desenho que temos aqui.

Nada nem que a gente morra desmente o que agora chega a minha voz.

Eu não quero dormir.

Caetano canta. O tempo que as vezes passa tão rápido de repente parece não passar, parece parado, parece que voa no mesmo lugar. Eu só queria chegar. Eu só queria poder contar pro mundo tudo isso que tu me faz sentir e que é tão bonito. Tão raro. Logo eu que achei que já não poderia sentir mais, que pensei que viveria de amores impossíveis. Passageiras paixões com prazo de validade bem curto. Eu que pensei que não sentiria mais, que o sexo seria bom só se fosse forte, que a passividade me perseguiria e que nunca mais o prazer viria de outro corpo por mais maravilhoso que fosse ele. Logo eu que sempre acreditei no amor achei que dessa vez realmente havia chegado a minha vez de estar só. E tudo bem. Mas não, você apareceu como quem não quer nada e me deixou assim, toda boba, toda fácil, molhada. Me pegou pela cintura, deu um cheiro no cangote e quase que implorando pra que não acontecesse, tentando fugir e explodindo de tesão: aconteceu. Não conseguimos evitar. E, que bom. Foi bom, está sendo. Eu gosto de fechar os olhos e me perder em lembranças tuas. Te agradeço, sabia? Mesmo que tudo isso não dê em nada, mesmo que eu sofra, mesmo que a gente decida que o melhor é não viver tudo isso, por mais que eu queira e que eu ache que você quer também. Te agradeço. Por me fazer sentir, pela paixão, por me ajudar a me reencontrar. Cada vez que eu te vejo resgato um pedaço meu perdido. Obrigada. 

Todo dia o sol levanta e a gente canta o sol de todo dia. 

Toda a noite a lua amansa e a gente dança venerando a noite. 

Ah como é bom dormir...

Ah como é bom despertar...

O céu é mais aqui.

O bom é um bom lugar.

Quase 19/06. Um dia de aeroporto. Acho chique.

Gosto do que sou quando estou com você, tem gosto de fundo azul, o cheiro de água que sinto, quando te encosto, congela o ano em agosto, gasto os dias com teu gosto, da minha boca gasta de tanto amargar, saudade que desgasta a palavra. sem degustar a palavra.

24/06 - Domingo, dia de São João

A cidade cresce a cada dia, o sol e o calor aumentam, a vontade não passa e é tanto tudo que acontece que parece que viveu um ano em uma semana. Branco. Azul. A pela rosa, levemente vermelha, os cabelos cada vez mais claros, cada dia mais longos, descabelados. Eu pensei que eu vivia de mais. Eu sempre quis ser assim. Fugi pro outro lado do oceano pra descansar e parece que faço mais e mais que já fazia do lado de lá. Parece que o tempo corre e que o mundo é pequeno. E eu querendo estar em todos os lugares. E eu querendo estar. Querendo parar. Querendo esvaziar mas cada vez mais explodindo.



30 de maio de 2018

sobre o que passou

(sobre os textos esquecidos no bloco de notas - 04 de março de 2018)

no céu, entre porto alegre e são paulo, domingo, as águas de março fechando o verão.

nasce uma mulher.
brota em mim uma flor amarela.
escorre entre as pernas a água salgada do mar.
o amar é leve.
o coração transborda.
eu não tenho mais medo.
eu vivo, eu vôo, eu amo, eu sou.
os fones embalam os paços pelo céu escuro do domingo. ela volta pra casa depois de um fim de semana de colo e carinho. o peito cheio de amores, as bochechas rosas, os cabelos crescem, a pele macia, o sorriso no rosto, o olhar profundo, longe, lá longe. 
voa betânia.
viva maria. 
respira suave.
eu sou, eu posso, eu vou.

ninguém
e
nada
pode me dizer que não!
sim!

a vida pode ser leve, alegre, tranquila e mesmo assim emocionante.

viva oxum, iemanjá, exu, serena assunção, luedji luna, ascenção, nanã, anelis, céu, bárbara, iara, ricardo, cláudia, joão, gabriel, alice, patrícia, sheila, vítor, vandré, cláudia, raul, axé, axé, axé.

amém.

além.

pode sacudir avião, daqui ninguém me derruba.

17 de fevereiro de 2018

sobre betânia

Sou dessas pessoas confusas que faz um monte de coisa e ao mesmo tempo não faz nada. Dessas pessoas de muitas palavras e imagens borradas. Dessas que tentam dar sentido pros desejos e que explodem e transbordam pelas beiradas.
Sou Betânia.
Sou só.
Rodeada de um monte de gente maravilhosa. Sou grande como o prédio mais alto da cidade cinza e sou pequena como a gota que escorre no box do banheiro. Sou mulher jovem, velha guerreira, meio Pollyanna, meio anos 80, meio sem jeito pra falar as verdades da vida.
Não sei o que faço, sei o que quero, sei que vou longe. Vôo alto, observo, sinto. Aterrizo, finco os pés no chão. Vivo.

30 de dezembro de 2017

sobre dezembro

caiu a noite e enfim cá estou eu, só, nessa cama quente. 

o verão chegou, junto com o fim de tarde chuvoso, os vinte e oito, o sol que queima a nuca e os cabelos que crescem. 

eu comigo nessa gangorra que só sobe faz tempo. 

eu nesse ninho de amor, nessa good vibe boa, nessa onda de bons ventos que bateu e parece que veio pra ficar. 

pois que fique, que seja eterno enquanto dure, não só os cachos e as meias covinhas. que fiquem as pernas bambas escorrendo gemendo pensando em ti. que fique essa estranheza na cama, esse vazio bom, essa saudade que deixa com gosto de quero mais. 

eu quero teus beijos e o gosto salgado de mar na boca. 

quero perder o tempo, não saber das horas, não olhar mais o celular a toa. 

eu quero o silêncio, as palavras, os textos, os vídeos que viram água que transbordam em mim e que eu não permito que saia há tanto tempo, tanto tudo, tanto ano que passou voando. 

tanta coisa pesada que foi, tanto ar leve que ficou, tanto pra entender ainda e um peito cheio de esperança. 

te beijo, no queixo.
me calo, num estalo.
te pego no colo e te faço mulher.

menina,
moça madura,
safada.
pequena.

os olhos fechados olhando pra dentro.
o coração transbordando, se dando por inteiro.
eu me deixando, aos poucos, nem tanto, nem muito.
gemendo.

suspiro e paro,
respiro.
ainda não acabou dezembro.

13 de outubro de 2017

pra você, que nunca me transbordou em palavras.

ela me pegava pela cintura e segurava forte, escorregava a mão rapidinho, achava o buraco e no meio do trânsito de são paulo, entre as luzes dos faróis dos outros carros, o sinal vermelho e a lua cheia amarela lá em cima, eu gemia. cada vez mais molhada. cada vez mais fora desse mundo, com a cabeça lá longe, os teus dedos dentro de mim e eu segurando o teu braço e pedindo mais. passa uma moto, duas, escorre um pingo de suor no rosto, aumenta o som do rádio, buzinas. os carros passam. a gente fica. ali. na boca do farol: eu, você e a noite sem fim. 

vontade de parar no tempo. vontade da nossa história ter ficado lá. vontade de te ter mulher ao meu lado, e só. me comendo. me fazendo ficar sem ar.

a gente fala tanto as vezes né? as vezes a gente não se cala. as vezes não tem assunto. as vezes falta silêncio. você me engoliu e eu nunca te transbordei em palavras. você me fez sentir plena e completa, me sentir amada, desejada, gostosa. você fez são paulo parecer pequena, fez a estrada ser mais curta e transformou o meu mundo tão só em uma festa. eu não sei o que aconteceu com nós. eu não sei o que aconteceu comigo. as lágrimas escorrem, os ponteiros do relógio giram sem pressa e eu escrevo essas palavras enquanto o pudim me olha confuso. eu não sei de nada. eu só sei que o meu mundo precisou ser só meu de novo. eu não quero me perder de mim. eu não quero ser engolida. eu quero a vida leve, a voz baixa, as palavras suaves. eu quero o silêncio.

a mão escorrega no rosto e me pega forte. forte. forte. desce pra perna, coxas. volta. sobe. e você me olha como se esperando alguma coisa. como se eu precisasse me explicar. como se eu tivesse acabado com tudo e não cansasse de acabar mais e mais. não é fácil. eu não sei o que falar. me faltam palavras e ar... ar, ar, ar. talvez me falte sensibilidade. ou talvez eu seja sensível de mais. talvez a gente precise entender que a gente se resume a isso: essa eterna tentativa de criar algo que não existe. talvez a gente não exista e sim exista a vontade de fazer isso dar certo, mas só a vontade não basta. não está bastando, né? não bastou.

eu queria te dizer palavras bonitas e te confortar nesse momento. queria te dizer que tudo vai passar, que é tudo culpa minha mesmo e que eu sou uma louca que baguncei tudo aí dentro. mas a gente sabe que não é verdade. a gente sabe que tanto eu quanto tu somos responsáveis por tudo isso. somos, não somos? 

eu te desejo uma vida linda. plena. leve. que caminhar seja cada vez mais fácil e que tu possa perdoar todos os que passaram e te sacudiram um pouco. que tu ame e seja amada, muito! que tu escute. que tu sinta. que tu se deixa levar pelo outro de vez em quando também. que tu perca o controle, bastante, até entender que a gente não tem controle de nada e nem de ninguém. espero que tu lembre de mim com carinho e que a gente possa tomar uma cerveja e rir da vida de vez em quando. que tu veja o mar. que tu coma bem. aliás, obrigada por ter me "alimentado" tão bem esse tempo. 

hoje a geladeira tá vazia e eu não tenho sentido muita vontade de cozinhar. hoje é sexta e eu sinto o vento do ventilador batendo nas minhas costas enquanto o pudim brinca com a caneta vermelha em cima da cama. hoje eu não sei o que vai ser do amanhã. não sei o que eu vou fazer no final do ano e nem se a minha vó vai estar viva na semana que vem. eu não sei se ano que vem eu vou estar nesse apartamento, não sei se vou conseguir emagrecer e nem sei se eu vou ver o mar tão cedo. hoje eu escolhi um monte de incertezas e tu com todas as tuas certezas e planos não coube aqui dentro. desculpa.

e obrigada. 

por tudo.

te quero muito bem, sempre. te guardo com carinho. aqui dentro.

26 de agosto de 2017

sobre a crise

de repente ela não soube explicar mais nada. a cabeça deu um nó. pifou. máquina quebrada. coração palpitante, ar que falta nos pulmões. choro mudo que escorre nas bochechas, entra pela boca e invade a garganta com seu gosto salgado. eu não sei o que está acontecendo. eu não sei onde foi que eu me perdi. a cidade segue apressada. as pessoas correm, gritam, esbarram umas nas outras. os mendigos pedem desculpa por uns trocados á toa. ela caminha sem rumo. ela não sabe de nada. ela tem medo de não voltar ao normal. de entrar em parafuso, de acabar com tudo. logo agora que tudo parecia estar dando certo. de repente o jogo virou. a casa caiu, ela perdeu o equilíbrio e despencou lá de cima do picadeiro. caiu de maduro. coração na mão. olhos vermelhos. silêncio. mil palavras que não calam. nada faz sentido. a vida segue. a vida segue. a vida segue. eu ando na corrente mesmo tropeçando e caindo, sou levada pela maré. sou peixe solto, sou peixe leve, sou pequena e forte e fraca. eu só queria um tempo. um tempo sem nada, um tempo pra mim. eu só queria estar presente, segura, aqui, no instante de agora e só. bem simples. nada fácil.

19 de junho de 2017

um ponto sem fim em um texto sem nó

era menina mansa de forte personalidade e a língua levemente presa. a cada novo dia um novo caminho entre os raios solares e o céu cinza aparecia. 

estava só. 
nesse momento. 
e estava cheia, preenchida até o gargalo, de tantas pessoas maravilhosas. 
de tanta vida colorida. 
de tantos presentes do universo. 

não escreve há um tempo e nem sabe bem como as palavras saem e como as frases fazem sentido sendo que as vezes não fazem mesmo. 

gosto de yakissoba na boca. vontade de chocolate. larica.

frio lá fora, frio aqui dentro, frio por todas as partes. 

se sente cansada, mas as palavras não param, os pensamentos voam e a casa borbulha, transpira, transborda... 

sentiu orgulho de ser gay. como nunca havia sentido antes. se pintou de azul, roxo, vermelho. colocou as pernas pra fora. a bunda pra fora. jogou purpurina no corpo inteiro e se sentiu corpo presente na maior avenida do país. 

eram cores. eram flores. era luta. era festa. 

era assistente, editora, diretora, fotografa. 
a pessoa que coloca o prego na parede, que fecha a casa, que marca a equipe, que cria o cronograma. 

era tudo. 
e era nada. 
e crescia e aparecia.

e ao mesmo tempo
queria mais tempo pra tanto muito 
que nem sabe. 

queria um dia em silêncio. um dia inteiro.
queria poder sentir de novo. 
queria viver menos. 
um pouco menos. 
só um pouquinho agora. 
por hora. 
por hoje. 

não reclama. não, jamais. 
não mudaria nada. 
nadinha. 
nadica de nada. 
entende? 

parece que não precisa fazer sentido. parece que a cabeça não tem mais espaço. 
me falta memória as vezes. 
me faltam lembranças. 
recordações recentes.
histórias que se vão como raio fulminante. 
como a vida que passa, intensa.
o tempo, que voa.
o ano que já tá está na metade.
os trinta que batem na porta.
as férias.
os três anos de são paulo 
ou
um ano de recheio 
ou
dois nesse apartamento tão pequeno.
nessa sauna.
na rua mais gay da cidade.

o texto se repete. 
já virou piada. 
mas é sério. bem sério. 
o cérebro pede socorro.
a bahia me chama.

o calor de lá me dá energia pra encarar o frio cinza daqui.
eu sou tropical.
não tenho muito cabelo.
nem cuido muito bem dos meus pés.
tomo mais de um banho por dia e o frio me deixa com a pele toda vermelha.
falo de mim.
porque?
não sei?
não sei mais de quem falar.
e nem quero, saber.


2 de abril de 2017

lua em câncer

sobre a menina de cabelos crespos e olhos mel que me olha no espelho. sobre a lágrima que escorre do olho esquerdo em pleno domingo, silenciosa e triste, enquanto caetano canta na sala, o sol ilumina a cama onde a gata descansa como se o tempo fosse outro. como se nada acontecesse, como se ela fosse única, ou talvez, não fosse a única que ali se encontra, perdida no meio dos prédios cinzas da cidade fria. cheiro de maconha entrando pela janela. a augusta vazia. os portões das lojas fechados. burburinho nos botecos. domingo é dia de futebol e um dia foi também dia de churrasco em família, de família. de família. de mãe, pai, vó e irmão reunidos em volta da mesa. dia de salada de batata, de sobremesa, de mesa farta, de café depois do almoço. e é por essas e tantas outras lembranças que ela não vira vegetariana. e também por isso que os domingos são sempre mais difíceis. ainda mais quando a lua está em câncer. e quando ela própria tem a lua em câncer e as vezes se pergunta: como foi que ela foi parar tão longe, heim?

já passou natal. passou o carnaval e os ovos de páscoa já dominam os supermercados da cidade. o ano já começou faz tempo pra ela. já se perguntou mil vezes para onde ir. já arrumou a bicicleta. já cortou as unhas. já fez planos, já mudou os planos, já se matriculou na academia. já cancelou a academia. já voltou a sangrar todo mês. as vezes sem nem notar, as vezes com cólicas, dor no seio, hipersensibilidade quase insuportável. e ainda há quem diga que é fácil ser mulher. o roxo do tornozelo já sumiu. já pensou em mudar, já surtou, já quis ir embora, já viu o mar. já se apaixonou, desapaixonou, pediu para terminar, deixou ir, quis de volta, se arrependeu, desarrependeu e repetiu muitas e tantas vezes que "tá tudo certo", daquele jeito meio poliana de ser. daquele jeito que as vezes não dá pra acreditar. tudo mudou.

tudo permanece.

e a brisa lá fora mais uma vez, como em todo início de outono, faz lembrar do sul. ou de montreal. ou do tempo em que o frio tinha companhia e era mais fácil passar por tudo isso. não que tenha sido fácil um dia e nem que esteja sendo muito difícil agora. só se repete, e é diferente ao mesmo tempo. mas eu sigo escrevendo sobre contradições e sigo me repetindo e me desdizendo. eu sigo não sabendo de muita coisa e sabendo de tudo ao mesmo tempo. eu sigo querendo me apaixonar mas também querendo a minha solidão. o meu eu. o meu tempo. meu silêncio. minhas vontades. 

tá todo mundo assim. todos emponderados de si mesmos. e isso é tão lindo mas ao mesmo tempo tá tão difícil de abrir mão de nós pelo outro. tá tão difícil se relacionar com todo mundo olhando tanto pra dentro.

5 de março de 2017

turbulência

13 de fevereiro de 2017

rio > são paulo


se ela soubesse o que aconteceria amanhã talvez o hoje teria sido diferente. o vôo noturno. o céu escuro lá fora. os dias de sol. a água gelada do mar. não tem muita gente aqui dentro. homens de camisa social e calça preta. sozinhos. bancos vazios. eu com os olhos vermelhos do sal e do sol. não faz muito frio no avião e a aeromoça simpática acendeu a luz para que eu pudesse ler. a luz que eu nem havia notado que estava apagada. aqui as pessoas são alegres, tem brilho nos olhos, não perguntam o quê você faz. aqui quando faz sol os macacos pulam pelas árvores e comem banana com as mãos, as jacas caem maduras no chão e o suor que escorre no rosto é gostoso. não sei, me pareceu mais leve. apesar dos tiroteios, da baía da guanabara poluída e da pobreza. o quê a gente fez com o mundo, heim? me diga você: branca, loira, do sul, amada, bem alimentada e cheia de privilégios. você que não sabe o que é passar fome, você que sempre teve o que quis, você que vive confortável, que é respeitada, bem tratada, me diga, o quê você faz pelo mundo? o que você faz além de viver, trabalhar e se divertir? você olha pro lado. você cuida. você grita quando uma mulher é assediada, você dá comida para os que tem fome, você não desvia o olhar. você ajuda. você tem medo. você queria fazer mais, mas não sabe como. você faz pouco. você não sabe de nada. você se acha bem resolvida mas na verdade a vida anda mesquinha e pequena. na verdade você quer muito e é como se sempre faltasse algo, mas não, não é a mesma sensação de antes, não tá tudo vazio, tudo escuro, sabe? tá tudo bem cheio, o peito explodindo, coração batendo, vida fervendo na panela. mas ainda assim falta, falta algo que você não sabe e que talvez nunca saiba. não é como se você precisasse de um porquê pra tudo. na verdade nem precisa entender, nem precisa fazer sentido. se aliviar o peito já tá bom.

eu e os meus hormônios e todo esse turbilhão aqui dentro. eu, minha alma sensível e as palavras que eu guardo. eu e esse monte de vontades e incertezas. vivendo. aprendendo. 

quarenta minutos de voo. o comandante agradece e ironicamente o livro que eu leio é sobre um suicida em um avião. lá em baixo são paulo e suas luzes me esperam. 

quase três anos já. 
e eu sigo com a mesma vontade de ir. 
de voar.

11 de janeiro de 2017

sem título

29 de dezembro de 2016.

Garopaba.

sobre a chuva que cai lá fora forte como o calor do verão tardio. sobre os reencontros com a família, o lado bom de tudo isso. sobre a mesa farta, a barriga cheia, a pele morena, vermelha, o colo de mãe, as piadas e a cerveja com o pai. sobre as verdades e as chatices que continuam iguais. o tempo passa, tudo permanece e eu me transformo a cada dia. a Lua tem medo dos raios, ofegante procura um buraco para se esconder. não tem refúgios nessa casa, não tem onde se esconder. o meu tempo é pouco, os dias passam rápido, intensos e agitados. eu quero a calmaria, a paz, o respirar tranquilo, o cheiro de mar e o gosto de praia. eu quero sentir tudo, de verdade. sem hormônios, cigarros e toda essa baboseira do mundo moderno que inventaram pra gente não olhar pra dentro, pra esconder a verdade, pra calar o coração. talvez eu exploda, talvez eu me perca, talvez eu mude tudo, comece de novo, peça socorro ou voe pra longe, bem longe, lá pro alto. ou talvez eu seja eu e tudo esteja bem, talvez eu me entenda e me respeite melhor e tudo isso, todas essas transformações, sejam leves. talvez não. talvez sim. quem sabe? e o ano novo vai chegar e eu vou entrar lúcida, consciente, comigo e só. de mãos dadas com a menina que virou mulher e que de repente se viu grande na selva de pedra. a menina que foge pro mar, que respira o verde e que não tem do que reclamar. a mulher que procura um caminho, que busca uma mão pra segurar, que caminha só em busca de um alguém que queira/possa/esteja aberto e preparado a compartilhar.

11 de janeiro de 2017.

São Paulo.

uma sala ampla, branca, janelas grandes, muitos computadores, muitas vozes, cabeças, barulhos de telefone. lá fora um calor digno de verão paulista, não tão forte, húmido e insuportável como o calor de porto alegre, mas quente, bem quente, daqueles que dá vontade de mudar para um prédio com piscina, daqueles que dá inveja das fotos no instagram da galera que está na praia, daqueles verões dignos de janeiro, de cidade grande que não para e de toda essa gente querendo ganhar dinheiro e trabalhar em um ano que nem começou de fato realmente. hoje é quarta. amanhã quinta. depois tem sexta, sábado e domingo. a lista de planos já está bem cheia, a vontade de realizá-los existe, é verdade, mas parece que tomar uma cerveja e fumar um baseado é sempre mais divertido. a gente é essa mania de se sentir completo, de ser feliz e realizado, de trabalhar, namorar, ter uma casa aconchegante, um animal de estimação e muitos eventos com os amigos. essa mania estranha de gente grande que faz terapia, paga as contas e quando vê se passaram dez anos e nada aconteceu.  


11 de dezembro de 2016

fim de ano

sobre a saudade.

hoje o domingo amanheceu tarde, com cara de silêncio, de cansaço, de corpo que pede calma. eu me olhei no espelho e vi que os pelos cresceram, as unhas precisam ser cortadas e a casa e a quíron parecem alegres em me ter por aqui. tá chegando o fim. e com ele sempre vem o início. fazer aniversário no final do ano, no último mês, sempre tornou tudo mais intenso, mais profundo, mais cheio de coisas e vontades e desejos. eu sinto falta da terra molhada, da água azul da piscina, dos passarinhos cantando, da luz quente que entra na casa, do chão de madeira bonito, das plantas no muro, dos mosaicos, das fotos, dos tapetes. sinto falta de acordar, abrir a janela e ver a árvore de canela bem linda balançando com o vento. do céu azul. do cheiro de zona sul. sinto falta do barulho do café passando na cafeteira, da voz da mãe e do pai conversando lá em baixo, da lua latindo e fazendo festa quando se dá conta de que eu acordei. eu tenho sentido uma saudade e as vezes me pego pensando se vale a pena tudo isso. eu aqui nesse apartamento sozinha e eles lá. 

sobre são paulo.

esse ano são paulo me engoliu. senti na pele o que tanto falam dessa cidade. caminhei com a boiada dentro do metrô, entrei no fluxo mesmo sempre buscando estar no contra fluxo. andei em linha reta. me afastei dos amigos. amei, desamei, namorei, separei. fui pra praia, vi o mar, respirei salgado e fotografei menos do que eu gostaria. terminei um curso, fiz uma exposição, dei vida aos projetos e vi materializado aquilo que eu não fazia ideia no que iria virar um dia. são paulo segue ensinando, segue cansativa, segue dando vontade de ficar e de sair correndo ao mesmo tempo. a cidade grande e suas pessoas solitárias que tem medo de amar. ainda sigo tentando entender o paulista, ainda acho difícil muita coisa, ainda sei que tem muito pela frente e que quando são paulo te pega pela cintura, te joga no carnaval e te dá uma casa e trabalho é porque a história por aqui vai ser longa e muita água vai rolar ainda. e confesso que me encanta todo esse caos.

sobre dois mil de dezesseis.

dois mil e dezesseis foi intenso, não foi o melhor, nem o pior, e foi lindo. foi o ano que me fez mulher. o ano que me fez adulta. que me mostrou o lado bom e o lado ruim de tudo isso. me olhei no espelho e me dei conta do quanto eu me conheço e do quanto eu hoje enfim, por fim, finalmente, entendo as profundezas do meu olhar. a menina cresceu, raspou os cabelos, deixou os cachos caírem e o rosto limpo aparecer, sem maquiagem e um pouco mais magra. mesma altura, mesmo número de roupa, tem coisas que não mudam com o tempo. mão de bebê, pés descalços, com calos, joanete e uma coleção de sapatos furados pra arrumar. a pele segue branca, bem branca, os lábios vermelhos, pernas torneadas, fortes, de quem caminha bastante e sobe e desce muita escada. cada vez mais me entendo, me respeito e me aceito. o bom e o ruim de mim andam juntos e já não tenho mais do quê reclamar. porque apesar de tudo, apesar da saudade que rasga o peito, apesar do amor que parece tão distante e tão difícil de encontrar, apesar do trabalho sempre com uma novidade, com uma surpresa, com algo me desafiando e, apesar da geladeira vazia e a falta de vontade de ir no super mercado, o disco continua girando, as páginas do calendário vão passando, o sol e a chuva vão alternando no céu e eu vou vivendo nessa minha roda gigante cheia de emoções. 

bloco de notas

as luzinhas coloridas piscam nas sacadas vizinhas. 

o calor chegou enfim, a lua é crescente e em uma semana os vinte e sete vem me parabenizar. ontem, hoje, amanhã. tudo assim tão rápido. as filmagens acabaram, o coração acalmou, a paixão continua. ela, a música e a quíron raspando a porta do quarto. cheiro de novo, gosto de antigo. parece que eu já sei de tudo mas não quero acreditar. parece que eu não sei de nada. não é conforto, não é fuga. é o agora chegando ou talvez seja só eu respirando profundo e com calma. talvez seja ela e a ameaça do que vai acontecer. ou talvez não aconteça nada. talvez seja uma mordida de gato no pé, miados noturnos, ou eu que não paro em casa. que não sinto mais tanto e que quando rola uma folga sinto tudo junto assim que nem sei. é uma mistura de alegria, satisfação e medo. como se não desse pra acreditar. o vazio sumiu. a solidão virou boa companheira quase rara, quase necessária as vezes, e nem tanto. o cansaço incrivelmente não veio hoje e nem o vinho branco gelado, nem o filme romântico sessão da tarde, nem os barulhos da augusta ou o som de batedeira da vizinha ajudaram o sono a vir. é tanta coisa. e tanto amor. é tanta profundeza e as imagens e os textos e eu querendo me encontrar e descobrindo que eu estou bem aqui, bem viva, sentindo tudo com uma consciência absurda que até assusta. 

ai tempo, senhor tempo, tic tac tic tac, daqui a pouco é amanhã e eu ainda não parei de pensar. daqui a pouco o galo canta e mais um dia cheio de surpresas nasce. daqui a pouco o sonho acontece, o coração palpita, a pele arrepia e tudo vai parecer se encaixar. se o sono deixar, se o sono chegar, e se eu deixar o amanhã pra depois... basta esperar. tudo vem. lindamente. tudo vem.

24 de novembro de 2016

menina dos olhos pequenos que me faz cada vez mais mulher.

espelho silencioso hablando español y haciendo el corazon sentir, sentir, sentir 
sentir-te 
tir-te 
tic
tac
tic
tac
tic
tac
tempo
tempo
tempo

sobre quando as palavras dançam, sobre quando as imagens tomam forma e o papel transparece tudo aquilo que parecia incerto. sobre o final, ou o início, ou o meio de tudo isso. sobre dezembro, o cheiro de verão no ar, a vontade de voar, de molhar os pés, de sentir a brisa da praia. sobre o sono de quem não dorme, sobre o cansaço do tempo que não para de passar, sobre os dias eternos e o sol iluminando a cidade. sobre respirar rápido, fumar muitos cigarros e querer sempre mais um copo de cerveja. sobre pedir carinho no telefone, sobre se jogar y empezar a dar amor de nuevo.

sobre o cheiro dela no travesseiro, os bilhetes pendurados no varal, os pedaços dela pela casa, o gosto, os cabelos, o vazio que fica.

6 de novembro de 2016

a primeira vista

água transborda. um rio dentro de mim. 

ela fecha os olhos e me lança um sorriso maroto de quem quer mais, de quem tem história pra contar, de quem já viu muito, sentiu muito e viveu um tanto que a gente nem imagina. olhos de criança, corpo de mulher. descabela os cabelos. suspiros no canto do ouvido. língua molhada corpo suado pingo salgado gosto de boca, de gente, de sexo. líquidos. escorre. geme. goza. geme. goza. suspira. olhos pequenos e profundos, história. coisas da vida. encontros de tempos modernos. de onlines, de gente conectada, de tempo presente. de tempo perdido, que a gente nem sabe mais que dia é hoje, ou quando foi o feriado. ah! o feriado. dia dos mortos e a gente aqui vivendo com as bochechas bem coradas e o som do karaokê ao fundo. a gente aqui vivendo. a gente aqui no nosso canto e toda essa coisa do mundo girando e o tudo acontecendo. a gente aqui querendo mais tempo porque parece que sempre é pouco. a gente que se conheceu ontem.

quando dei por mim, tava aqui.

6 de setembro de 2016

a cidade em mim

as vezes eu acho que eu tô fugindo não sei do quê. as vezes eu acho que eu me cobro de mais. as vezes eu acho que eu me iludo, que eu não olho, que eu procuro desculpas pra me perdoar por tudo. mas tudo o quê? tá tudo certo. as vezes eu não sei porque não fui, porque não fiz, porque não falei, porque eu fico aqui parada. as vezes eu sei que é cansaço, que é a cabeça que não para, que é o cérebro tentando controlar o coração e eu não entendendo nada. as vezes o choro é seco, o grito é mudo enquanto o gato corre enlouquecido pela casa. a cama é grande e quente e a cidade em silêncio lá fora e as cobertas que sobram, as meias que caem, os pés gelados, o travesseiro duro, a falta de espuma, de penas de ganso, o ônibus que para no ponto, a moça que desce cambaleante a augusta escura, sem medo, sem rumo, sentindo o cheiro de podre do ar. menina mulher quer ver o mar. menina moça que não sabe de nada. tudo gira e as vezes parece estar tudo errado, ouço som de bombas voando do céu, pessoas correm, ouço gritos de guerra. fora temer. e pra quê tanto medo? os olhos não arderam ainda, as pernas não cansaram, o corpo não consegue ficar parado. precisa de mais. preciso de nós. preciso de mim. tempo que passa, que para, que não espera, que implora por um pouco de suspiros verdadeiros, de um início de primavera. broto. nasce. floresce. transborda. e é só segunda-feira.

22 de agosto de 2016

não dá pra querer segurar com as mãos o vento

hoje o dia amanheceu cinza e tudo pareceu não fazer mais sentido. as certezas de repente viraram dúvida e ela não sabe mais onde está, o que quer, para onde ir. não sabe mais se o rumo que a vida levou era aquele mesmo que ela queria. de repente as incertezas viraram gigantes e o cansaço e a saudade de si mesma tomaram conta do corpo, dos olhos, dos músculos, das lágrimas. a água escorre salgada e abundante, grito seco na garganta, coriza que sai do nariz. tristeza no peito. um vazio daqueles que a gente não entende, daqueles que não fazem muito sentido, daqueles que dão vontade de se encolher na cama e ficar bem pequenininha até passar. quietinha. só ela, a dor, as lágrimas, as dúvidas e mais nada. até o silêncio dominar a casa e a cama virar um buraco profundo de mais. deu vontade de ir embora. deu vontade de fugir pro verão. ou pro sul, pro colo dos de lá. não que fosse resolver alguma coisa. não resolveria nada. talvez seja só ela se dando conta de que a gente não sabe de nada mesmo. de que não dá pra querer segurar com as mãos o vento. de que talvez toda essa vontade de ser muito seja cansativa de mais e de repente quando tudo tá dando assim meio quase certo dá um medo e uma vontade de fugir pro mato. sentiu o trabalho lhe engolir. sentiu a cidade lhe dominando, o tempo passando rápido e a cabeça explodir com tanta coisa inútil que não interessa pra ninguém. talvez ela não tenha sido feita pro mundo dos homens. ou talvez ela não seja tão forte assim quanto pensava. ou talvez tenha sido o mar. as ondas batiam nas pedras e o céu cinza se confundia com o prateado da água poluída pelos barcos, pelos porcos, por nós. eu era uma menina boba e boa. boa e cheia de desconfianças que confiava demais nos outros. eu era uma mulher apaixonada pela vida que sentia uma solidão imensa nas noites de frio. eu era uma jovem cheia de amigos e convites intermináveis para festas e encontros e almoços e peças e tudo mais. eu era dessas pessoas que sentem falta de algo, que ainda não se encontraram e que quando acham ou parece que tudo está indo bem precisam derrubar o castelo de novo só pra saber que ainda tem muita estrada pela frente, que a gente não sabe é de nada e que pra ser leve e flutuar pela cidade é preciso muito desapego, muito desapego, muito desapego, muito muito muito muito, pouco medo. é preciso olhar pra trás e não mais chorar. é preciso fazer carinho no peito. é preciso se cobrar menos, se cobrar menos, se cobrar menos. tá tudo bem. tá tudo certo. e hoje eu não preciso fazer mais nada e nem entender mais nada. as coisas não precisam ter sentido. um dia eu entendo. um dia eu aprendo. amanhã será um dia melhor e se os céus me ouviram hoje: que tenha sol.