9 de julho de 2018

sinto o balanço

sinto o balanço do barco, como se eu ainda estivesse em alto mar. 
sinto a mulher forte brotando, lá de dentro, lá do fundo.
ouço uma gargalhada leve, um suspiro, um riso bom.
sinto os pelos arrepiando, a respiração ficando intensa.
estrala os dedos.
sente frio nos pés, sente medo.
sente a menina apaixonada olhar pro lado pra ter certeza se é com ela mesma.
vejo os olhos brilharem, vejo os olhos brilharem!
sinto a tua mão em mim, quente.
escorregando pelo meu corpo, passando por todos os cantos, descendo
pelas 
coxas
por
baixo 
da 
saia
os 
dedos
ai
os 
dedos!

é sempre difícil não me perder em pensamentos maliciosos com você.

24 de junho de 2018

viagens, rascunhos, pra não perder a palavra.

18 de junho - férias

Primeiro dia, no céu. De um lado a lua crescente, lá em baixo o oceano, quase chegando no outro continente. Ela assiste desenhos animados porque o mundo das crianças sempre lhe pareceu mais interessante. Depois, enquanto o sono não vem, o sono que talvez nem venha, ela assiste Pocahontas na esperança de entender a criança que tinha uma índia como personagem favorito e de repente faz sentido tudo o que ela se tornou. Pocahontas ia com o vento, para onde ele lhe levasse. Corajosa, queria mais, era leve. Eu vejo a Betânia de ontem aqui, a Betânia criança, hoje, ainda vive. Que bom! Que bom que ela não morreu junto com tanta coisa que a gente perde no caminho. Apaixonada, com o brilho nos olhos, o sorriso fácil e as lágrimas que escorrem sem parar e lhe molham o rosto rosado. Eu sinto, eu vivo, eu sou eu cada vez mais e como é bom poder ser o que eu quiser! Como é bom sentir, como é bom chorar, como é bom sorrir! Estou viva!

O que eu gosto no rio é que ele nunca permanece no mesmo lugar.

Não nada irá nesse mundo apagar o desenho que temos aqui.

Nada nem que a gente morra desmente o que agora chega a minha voz.

Eu não quero dormir.

Caetano canta. O tempo que as vezes passa tão rápido de repente parece não passar, parece parado, parece que voa no mesmo lugar. Eu só queria chegar. Eu só queria poder contar pro mundo tudo isso que tu me faz sentir e que é tão bonito. Tão raro. Logo eu que achei que já não poderia sentir mais, que pensei que viveria de amores impossíveis. Passageiras paixões com prazo de validade bem curto. Eu que pensei que não sentiria mais, que o sexo seria bom só se fosse forte, que a passividade me perseguiria e que nunca mais o prazer viria de outro corpo por mais maravilhoso que fosse ele. Logo eu que sempre acreditei no amor achei que dessa vez realmente havia chegado a minha vez de estar só. E tudo bem. Mas não, você apareceu como quem não quer nada e me deixou assim, toda boba, toda fácil, molhada. Me pegou pela cintura, deu um cheiro no cangote e quase que implorando pra que não acontecesse, tentando fugir e explodindo de tesão: aconteceu. Não conseguimos evitar. E, que bom. Foi bom, está sendo. Eu gosto de fechar os olhos e me perder em lembranças tuas. Te agradeço, sabia? Mesmo que tudo isso não dê em nada, mesmo que eu sofra, mesmo que a gente decida que o melhor é não viver tudo isso, por mais que eu queira e que eu ache que você quer também. Te agradeço. Por me fazer sentir, pela paixão, por me ajudar a me reencontrar. Cada vez que eu te vejo resgato um pedaço meu perdido. Obrigada. 

Todo dia o sol levanta e a gente canta o sol de todo dia. 

Toda a noite a lua amansa e a gente dança venerando a noite. 

Ah como é bom dormir...

Ah como é bom despertar...

O céu é mais aqui.

O bom é um bom lugar.

Quase 19/06. Um dia de aeroporto. Acho chique.

Gosto do que sou quando estou com você, tem gosto de fundo azul, o cheiro de água que sinto, quando te encosto, congela o ano em agosto, gasto os dias com teu gosto, da minha boca gasta de tanto amargar, saudade que desgasta a palavra. sem degustar a palavra.

24/06 - Domingo, dia de São João

A cidade cresce a cada dia, o sol e o calor aumentam, a vontade não passa e é tanto tudo que acontece que parece que viveu um ano em uma semana. Branco. Azul. A pela rosa, levemente vermelha, os cabelos cada vez mais claros, cada dia mais longos, descabelados. Eu pensei que eu vivia de mais. Eu sempre quis ser assim. Fugi pro outro lado do oceano pra descansar e parece que faço mais e mais que já fazia do lado de lá. Parece que o tempo corre e que o mundo é pequeno. E eu querendo estar em todos os lugares. E eu querendo estar. Querendo parar. Querendo esvaziar mas cada vez mais explodindo.



30 de maio de 2018

sobre o que passou

(sobre os textos esquecidos no bloco de notas - 04 de março de 2018)

no céu, entre porto alegre e são paulo, domingo, as águas de março fechando o verão.

nasce uma mulher.
brota em mim uma flor amarela.
escorre entre as pernas a água salgada do mar.
o amar é leve.
o coração transborda.
eu não tenho mais medo.
eu vivo, eu vôo, eu amo, eu sou.
os fones embalam os paços pelo céu escuro do domingo. ela volta pra casa depois de um fim de semana de colo e carinho. o peito cheio de amores, as bochechas rosas, os cabelos crescem, a pele macia, o sorriso no rosto, o olhar profundo, longe, lá longe. 
voa betânia.
viva maria. 
respira suave.
eu sou, eu posso, eu vou.

ninguém
e
nada
pode me dizer que não!
sim!

a vida pode ser leve, alegre, tranquila e mesmo assim emocionante.

viva oxum, iemanjá, exu, serena assunção, luedji luna, ascenção, nanã, anelis, céu, bárbara, iara, ricardo, cláudia, joão, gabriel, alice, patrícia, sheila, vítor, vandré, cláudia, raul, axé, axé, axé.

amém.

além.

pode sacudir avião, daqui ninguém me derruba.

17 de fevereiro de 2018

sobre betânia

Sou dessas pessoas confusas que faz um monte de coisa e ao mesmo tempo não faz nada. Dessas pessoas de muitas palavras e imagens borradas. Dessas que tentam dar sentido pros desejos e que explodem e transbordam pelas beiradas.
Sou Betânia.
Sou só.
Rodeada de um monte de gente maravilhosa. Sou grande como o prédio mais alto da cidade cinza e sou pequena como a gota que escorre no box do banheiro. Sou mulher jovem, velha guerreira, meio Pollyanna, meio anos 80, meio sem jeito pra falar as verdades da vida.
Não sei o que faço, sei o que quero, sei que vou longe. Vôo alto, observo, sinto. Aterrizo, finco os pés no chão. Vivo.

30 de dezembro de 2017

sobre dezembro

caiu a noite e enfim cá estou eu, só, nessa cama quente. 

o verão chegou, junto com o fim de tarde chuvoso, os vinte e oito, o sol que queima a nuca e os cabelos que crescem. 

eu comigo nessa gangorra que só sobe faz tempo. 

eu nesse ninho de amor, nessa good vibe boa, nessa onda de bons ventos que bateu e parece que veio pra ficar. 

pois que fique, que seja eterno enquanto dure, não só os cachos e as meias covinhas. que fiquem as pernas bambas escorrendo gemendo pensando em ti. que fique essa estranheza na cama, esse vazio bom, essa saudade que deixa com gosto de quero mais. 

eu quero teus beijos e o gosto salgado de mar na boca. 

quero perder o tempo, não saber das horas, não olhar mais o celular a toa. 

eu quero o silêncio, as palavras, os textos, os vídeos que viram água que transbordam em mim e que eu não permito que saia há tanto tempo, tanto tudo, tanto ano que passou voando. 

tanta coisa pesada que foi, tanto ar leve que ficou, tanto pra entender ainda e um peito cheio de esperança. 

te beijo, no queixo.
me calo, num estalo.
te pego no colo e te faço mulher.

menina,
moça madura,
safada.
pequena.

os olhos fechados olhando pra dentro.
o coração transbordando, se dando por inteiro.
eu me deixando, aos poucos, nem tanto, nem muito.
gemendo.

suspiro e paro,
respiro.
ainda não acabou dezembro.

13 de outubro de 2017

pra você, que nunca me transbordou em palavras.

ela me pegava pela cintura e segurava forte, escorregava a mão rapidinho, achava o buraco e no meio do trânsito de são paulo, entre as luzes dos faróis dos outros carros, o sinal vermelho e a lua cheia amarela lá em cima, eu gemia. cada vez mais molhada. cada vez mais fora desse mundo, com a cabeça lá longe, os teus dedos dentro de mim e eu segurando o teu braço e pedindo mais. passa uma moto, duas, escorre um pingo de suor no rosto, aumenta o som do rádio, buzinas. os carros passam. a gente fica. ali. na boca do farol: eu, você e a noite sem fim. 

vontade de parar no tempo. vontade da nossa história ter ficado lá. vontade de te ter mulher ao meu lado, e só. me comendo. me fazendo ficar sem ar.

a gente fala tanto as vezes né? as vezes a gente não se cala. as vezes não tem assunto. as vezes falta silêncio. você me engoliu e eu nunca te transbordei em palavras. você me fez sentir plena e completa, me sentir amada, desejada, gostosa. você fez são paulo parecer pequena, fez a estrada ser mais curta e transformou o meu mundo tão só em uma festa. eu não sei o que aconteceu com nós. eu não sei o que aconteceu comigo. as lágrimas escorrem, os ponteiros do relógio giram sem pressa e eu escrevo essas palavras enquanto o pudim me olha confuso. eu não sei de nada. eu só sei que o meu mundo precisou ser só meu de novo. eu não quero me perder de mim. eu não quero ser engolida. eu quero a vida leve, a voz baixa, as palavras suaves. eu quero o silêncio.

a mão escorrega no rosto e me pega forte. forte. forte. desce pra perna, coxas. volta. sobe. e você me olha como se esperando alguma coisa. como se eu precisasse me explicar. como se eu tivesse acabado com tudo e não cansasse de acabar mais e mais. não é fácil. eu não sei o que falar. me faltam palavras e ar... ar, ar, ar. talvez me falte sensibilidade. ou talvez eu seja sensível de mais. talvez a gente precise entender que a gente se resume a isso: essa eterna tentativa de criar algo que não existe. talvez a gente não exista e sim exista a vontade de fazer isso dar certo, mas só a vontade não basta. não está bastando, né? não bastou.

eu queria te dizer palavras bonitas e te confortar nesse momento. queria te dizer que tudo vai passar, que é tudo culpa minha mesmo e que eu sou uma louca que baguncei tudo aí dentro. mas a gente sabe que não é verdade. a gente sabe que tanto eu quanto tu somos responsáveis por tudo isso. somos, não somos? 

eu te desejo uma vida linda. plena. leve. que caminhar seja cada vez mais fácil e que tu possa perdoar todos os que passaram e te sacudiram um pouco. que tu ame e seja amada, muito! que tu escute. que tu sinta. que tu se deixa levar pelo outro de vez em quando também. que tu perca o controle, bastante, até entender que a gente não tem controle de nada e nem de ninguém. espero que tu lembre de mim com carinho e que a gente possa tomar uma cerveja e rir da vida de vez em quando. que tu veja o mar. que tu coma bem. aliás, obrigada por ter me "alimentado" tão bem esse tempo. 

hoje a geladeira tá vazia e eu não tenho sentido muita vontade de cozinhar. hoje é sexta e eu sinto o vento do ventilador batendo nas minhas costas enquanto o pudim brinca com a caneta vermelha em cima da cama. hoje eu não sei o que vai ser do amanhã. não sei o que eu vou fazer no final do ano e nem se a minha vó vai estar viva na semana que vem. eu não sei se ano que vem eu vou estar nesse apartamento, não sei se vou conseguir emagrecer e nem sei se eu vou ver o mar tão cedo. hoje eu escolhi um monte de incertezas e tu com todas as tuas certezas e planos não coube aqui dentro. desculpa.

e obrigada. 

por tudo.

te quero muito bem, sempre. te guardo com carinho. aqui dentro.

26 de agosto de 2017

sobre a crise

de repente ela não soube explicar mais nada. a cabeça deu um nó. pifou. máquina quebrada. coração palpitante, ar que falta nos pulmões. choro mudo que escorre nas bochechas, entra pela boca e invade a garganta com seu gosto salgado. eu não sei o que está acontecendo. eu não sei onde foi que eu me perdi. a cidade segue apressada. as pessoas correm, gritam, esbarram umas nas outras. os mendigos pedem desculpa por uns trocados á toa. ela caminha sem rumo. ela não sabe de nada. ela tem medo de não voltar ao normal. de entrar em parafuso, de acabar com tudo. logo agora que tudo parecia estar dando certo. de repente o jogo virou. a casa caiu, ela perdeu o equilíbrio e despencou lá de cima do picadeiro. caiu de maduro. coração na mão. olhos vermelhos. silêncio. mil palavras que não calam. nada faz sentido. a vida segue. a vida segue. a vida segue. eu ando na corrente mesmo tropeçando e caindo, sou levada pela maré. sou peixe solto, sou peixe leve, sou pequena e forte e fraca. eu só queria um tempo. um tempo sem nada, um tempo pra mim. eu só queria estar presente, segura, aqui, no instante de agora e só. bem simples. nada fácil.