26 de agosto de 2017

sobre a crise

de repente ela não soube explicar mais nada. a cabeça deu um nó. pifou. máquina quebrada. coração palpitante, ar que falta nos pulmões. choro mudo que escorre nas bochechas, entra pela boca e invade a garganta com seu gosto salgado. eu não sei o que está acontecendo. eu não sei onde foi que eu me perdi. a cidade segue apressada. as pessoas correm, gritam, esbarram umas nas outras. os mendigos pedem desculpa por uns trocados á toa. ela caminha sem rumo. ela não sabe de nada. ela tem medo de não voltar ao normal. de entrar em parafuso, de acabar com tudo. logo agora que tudo parecia estar dando certo. de repente o jogo virou. a casa caiu, ela perdeu o equilíbrio e despencou lá de cima do picadeiro. caiu de maduro. coração na mão. olhos vermelhos. silêncio. mil palavras que não calam. nada faz sentido. a vida segue. a vida segue. a vida segue. eu ando na corrente mesmo tropeçando e caindo, sou levada pela maré. sou peixe solto, sou peixe leve, sou pequena e forte e fraca. eu só queria um tempo. um tempo sem nada, um tempo pra mim. eu só queria estar presente, segura, aqui, no instante de agora e só. bem simples. nada fácil.

19 de junho de 2017

um ponto sem fim em um texto sem nó

era menina mansa de forte personalidade e a língua levemente presa. a cada novo dia um novo caminho entre os raios solares e o céu cinza aparecia. 

estava só. 
nesse momento. 
e estava cheia, preenchida até o gargalo, de tantas pessoas maravilhosas. 
de tanta vida colorida. 
de tantos presentes do universo. 

não escreve há um tempo e nem sabe bem como as palavras saem e como as frases fazem sentido sendo que as vezes não fazem mesmo. 

gosto de yakissoba na boca. vontade de chocolate. larica.

frio lá fora, frio aqui dentro, frio por todas as partes. 

se sente cansada, mas as palavras não param, os pensamentos voam e a casa borbulha, transpira, transborda... 

sentiu orgulho de ser gay. como nunca havia sentido antes. se pintou de azul, roxo, vermelho. colocou as pernas pra fora. a bunda pra fora. jogou purpurina no corpo inteiro e se sentiu corpo presente na maior avenida do país. 

eram cores. eram flores. era luta. era festa. 

era assistente, editora, diretora, fotografa. 
a pessoa que coloca o prego na parede, que fecha a casa, que marca a equipe, que cria o cronograma. 

era tudo. 
e era nada. 
e crescia e aparecia.

e ao mesmo tempo
queria mais tempo pra tanto muito 
que nem sabe. 

queria um dia em silêncio. um dia inteiro.
queria poder sentir de novo. 
queria viver menos. 
um pouco menos. 
só um pouquinho agora. 
por hora. 
por hoje. 

não reclama. não, jamais. 
não mudaria nada. 
nadinha. 
nadica de nada. 
entende? 

parece que não precisa fazer sentido. parece que a cabeça não tem mais espaço. 
me falta memória as vezes. 
me faltam lembranças. 
recordações recentes.
histórias que se vão como raio fulminante. 
como a vida que passa, intensa.
o tempo, que voa.
o ano que já tá está na metade.
os trinta que batem na porta.
as férias.
os três anos de são paulo 
ou
um ano de recheio 
ou
dois nesse apartamento tão pequeno.
nessa sauna.
na rua mais gay da cidade.

o texto se repete. 
já virou piada. 
mas é sério. bem sério. 
o cérebro pede socorro.
a bahia me chama.

o calor de lá me dá energia pra encarar o frio cinza daqui.
eu sou tropical.
não tenho muito cabelo.
nem cuido muito bem dos meus pés.
tomo mais de um banho por dia e o frio me deixa com a pele toda vermelha.
falo de mim.
porque?
não sei?
não sei mais de quem falar.
e nem quero, saber.


2 de abril de 2017

lua em câncer

sobre a menina de cabelos crespos e olhos mel que me olha no espelho. sobre a lágrima que escorre do olho esquerdo em pleno domingo, silenciosa e triste, enquanto caetano canta na sala, o sol ilumina a cama onde a gata descansa como se o tempo fosse outro. como se nada acontecesse, como se ela fosse única, ou talvez, não fosse a única que ali se encontra, perdida no meio dos prédios cinzas da cidade fria. cheiro de maconha entrando pela janela. a augusta vazia. os portões das lojas fechados. burburinho nos botecos. domingo é dia de futebol e um dia foi também dia de churrasco em família, de família. de família. de mãe, pai, vó e irmão reunidos em volta da mesa. dia de salada de batata, de sobremesa, de mesa farta, de café depois do almoço. e é por essas e tantas outras lembranças que ela não vira vegetariana. e também por isso que os domingos são sempre mais difíceis. ainda mais quando a lua está em câncer. e quando ela própria tem a lua em câncer e as vezes se pergunta: como foi que ela foi parar tão longe, heim?

já passou natal. passou o carnaval e os ovos de páscoa já dominam os supermercados da cidade. o ano já começou faz tempo pra ela. já se perguntou mil vezes para onde ir. já arrumou a bicicleta. já cortou as unhas. já fez planos, já mudou os planos, já se matriculou na academia. já cancelou a academia. já voltou a sangrar todo mês. as vezes sem nem notar, as vezes com cólicas, dor no seio, hipersensibilidade quase insuportável. e ainda há quem diga que é fácil ser mulher. o roxo do tornozelo já sumiu. já pensou em mudar, já surtou, já quis ir embora, já viu o mar. já se apaixonou, desapaixonou, pediu para terminar, deixou ir, quis de volta, se arrependeu, desarrependeu e repetiu muitas e tantas vezes que "tá tudo certo", daquele jeito meio poliana de ser. daquele jeito que as vezes não dá pra acreditar. tudo mudou.

tudo permanece.

e a brisa lá fora mais uma vez, como em todo início de outono, faz lembrar do sul. ou de montreal. ou do tempo em que o frio tinha companhia e era mais fácil passar por tudo isso. não que tenha sido fácil um dia e nem que esteja sendo muito difícil agora. só se repete, e é diferente ao mesmo tempo. mas eu sigo escrevendo sobre contradições e sigo me repetindo e me desdizendo. eu sigo não sabendo de muita coisa e sabendo de tudo ao mesmo tempo. eu sigo querendo me apaixonar mas também querendo a minha solidão. o meu eu. o meu tempo. meu silêncio. minhas vontades. 

tá todo mundo assim. todos emponderados de si mesmos. e isso é tão lindo mas ao mesmo tempo tá tão difícil de abrir mão de nós pelo outro. tá tão difícil se relacionar com todo mundo olhando tanto pra dentro.

5 de março de 2017

turbulência

13 de fevereiro de 2017

rio > são paulo


se ela soubesse o que aconteceria amanhã talvez o hoje teria sido diferente. o vôo noturno. o céu escuro lá fora. os dias de sol. a água gelada do mar. não tem muita gente aqui dentro. homens de camisa social e calça preta. sozinhos. bancos vazios. eu com os olhos vermelhos do sal e do sol. não faz muito frio no avião e a aeromoça simpática acendeu a luz para que eu pudesse ler. a luz que eu nem havia notado que estava apagada. aqui as pessoas são alegres, tem brilho nos olhos, não perguntam o quê você faz. aqui quando faz sol os macacos pulam pelas árvores e comem banana com as mãos, as jacas caem maduras no chão e o suor que escorre no rosto é gostoso. não sei, me pareceu mais leve. apesar dos tiroteios, da baía da guanabara poluída e da pobreza. o quê a gente fez com o mundo, heim? me diga você: branca, loira, do sul, amada, bem alimentada e cheia de privilégios. você que não sabe o que é passar fome, você que sempre teve o que quis, você que vive confortável, que é respeitada, bem tratada, me diga, o quê você faz pelo mundo? o que você faz além de viver, trabalhar e se divertir? você olha pro lado. você cuida. você grita quando uma mulher é assediada, você dá comida para os que tem fome, você não desvia o olhar. você ajuda. você tem medo. você queria fazer mais, mas não sabe como. você faz pouco. você não sabe de nada. você se acha bem resolvida mas na verdade a vida anda mesquinha e pequena. na verdade você quer muito e é como se sempre faltasse algo, mas não, não é a mesma sensação de antes, não tá tudo vazio, tudo escuro, sabe? tá tudo bem cheio, o peito explodindo, coração batendo, vida fervendo na panela. mas ainda assim falta, falta algo que você não sabe e que talvez nunca saiba. não é como se você precisasse de um porquê pra tudo. na verdade nem precisa entender, nem precisa fazer sentido. se aliviar o peito já tá bom.

eu e os meus hormônios e todo esse turbilhão aqui dentro. eu, minha alma sensível e as palavras que eu guardo. eu e esse monte de vontades e incertezas. vivendo. aprendendo. 

quarenta minutos de voo. o comandante agradece e ironicamente o livro que eu leio é sobre um suicida em um avião. lá em baixo são paulo e suas luzes me esperam. 

quase três anos já. 
e eu sigo com a mesma vontade de ir. 
de voar.

11 de janeiro de 2017

sem título

29 de dezembro de 2016.

Garopaba.

sobre a chuva que cai lá fora forte como o calor do verão tardio. sobre os reencontros com a família, o lado bom de tudo isso. sobre a mesa farta, a barriga cheia, a pele morena, vermelha, o colo de mãe, as piadas e a cerveja com o pai. sobre as verdades e as chatices que continuam iguais. o tempo passa, tudo permanece e eu me transformo a cada dia. a Lua tem medo dos raios, ofegante procura um buraco para se esconder. não tem refúgios nessa casa, não tem onde se esconder. o meu tempo é pouco, os dias passam rápido, intensos e agitados. eu quero a calmaria, a paz, o respirar tranquilo, o cheiro de mar e o gosto de praia. eu quero sentir tudo, de verdade. sem hormônios, cigarros e toda essa baboseira do mundo moderno que inventaram pra gente não olhar pra dentro, pra esconder a verdade, pra calar o coração. talvez eu exploda, talvez eu me perca, talvez eu mude tudo, comece de novo, peça socorro ou voe pra longe, bem longe, lá pro alto. ou talvez eu seja eu e tudo esteja bem, talvez eu me entenda e me respeite melhor e tudo isso, todas essas transformações, sejam leves. talvez não. talvez sim. quem sabe? e o ano novo vai chegar e eu vou entrar lúcida, consciente, comigo e só. de mãos dadas com a menina que virou mulher e que de repente se viu grande na selva de pedra. a menina que foge pro mar, que respira o verde e que não tem do que reclamar. a mulher que procura um caminho, que busca uma mão pra segurar, que caminha só em busca de um alguém que queira/possa/esteja aberto e preparado a compartilhar.

11 de janeiro de 2017.

São Paulo.

uma sala ampla, branca, janelas grandes, muitos computadores, muitas vozes, cabeças, barulhos de telefone. lá fora um calor digno de verão paulista, não tão forte, húmido e insuportável como o calor de porto alegre, mas quente, bem quente, daqueles que dá vontade de mudar para um prédio com piscina, daqueles que dá inveja das fotos no instagram da galera que está na praia, daqueles verões dignos de janeiro, de cidade grande que não para e de toda essa gente querendo ganhar dinheiro e trabalhar em um ano que nem começou de fato realmente. hoje é quarta. amanhã quinta. depois tem sexta, sábado e domingo. a lista de planos já está bem cheia, a vontade de realizá-los existe, é verdade, mas parece que tomar uma cerveja e fumar um baseado é sempre mais divertido. a gente é essa mania de se sentir completo, de ser feliz e realizado, de trabalhar, namorar, ter uma casa aconchegante, um animal de estimação e muitos eventos com os amigos. essa mania estranha de gente grande que faz terapia, paga as contas e quando vê se passaram dez anos e nada aconteceu.  


11 de dezembro de 2016

fim de ano

sobre a saudade.

hoje o domingo amanheceu tarde, com cara de silêncio, de cansaço, de corpo que pede calma. eu me olhei no espelho e vi que os pelos cresceram, as unhas precisam ser cortadas e a casa e a quíron parecem alegres em me ter por aqui. tá chegando o fim. e com ele sempre vem o início. fazer aniversário no final do ano, no último mês, sempre tornou tudo mais intenso, mais profundo, mais cheio de coisas e vontades e desejos. eu sinto falta da terra molhada, da água azul da piscina, dos passarinhos cantando, da luz quente que entra na casa, do chão de madeira bonito, das plantas no muro, dos mosaicos, das fotos, dos tapetes. sinto falta de acordar, abrir a janela e ver a árvore de canela bem linda balançando com o vento. do céu azul. do cheiro de zona sul. sinto falta do barulho do café passando na cafeteira, da voz da mãe e do pai conversando lá em baixo, da lua latindo e fazendo festa quando se dá conta de que eu acordei. eu tenho sentido uma saudade e as vezes me pego pensando se vale a pena tudo isso. eu aqui nesse apartamento sozinha e eles lá. 

sobre são paulo.

esse ano são paulo me engoliu. senti na pele o que tanto falam dessa cidade. caminhei com a boiada dentro do metrô, entrei no fluxo mesmo sempre buscando estar no contra fluxo. andei em linha reta. me afastei dos amigos. amei, desamei, namorei, separei. fui pra praia, vi o mar, respirei salgado e fotografei menos do que eu gostaria. terminei um curso, fiz uma exposição, dei vida aos projetos e vi materializado aquilo que eu não fazia ideia no que iria virar um dia. são paulo segue ensinando, segue cansativa, segue dando vontade de ficar e de sair correndo ao mesmo tempo. a cidade grande e suas pessoas solitárias que tem medo de amar. ainda sigo tentando entender o paulista, ainda acho difícil muita coisa, ainda sei que tem muito pela frente e que quando são paulo te pega pela cintura, te joga no carnaval e te dá uma casa e trabalho é porque a história por aqui vai ser longa e muita água vai rolar ainda. e confesso que me encanta todo esse caos.

sobre dois mil de dezesseis.

dois mil e dezesseis foi intenso, não foi o melhor, nem o pior, e foi lindo. foi o ano que me fez mulher. o ano que me fez adulta. que me mostrou o lado bom e o lado ruim de tudo isso. me olhei no espelho e me dei conta do quanto eu me conheço e do quanto eu hoje enfim, por fim, finalmente, entendo as profundezas do meu olhar. a menina cresceu, raspou os cabelos, deixou os cachos caírem e o rosto limpo aparecer, sem maquiagem e um pouco mais magra. mesma altura, mesmo número de roupa, tem coisas que não mudam com o tempo. mão de bebê, pés descalços, com calos, joanete e uma coleção de sapatos furados pra arrumar. a pele segue branca, bem branca, os lábios vermelhos, pernas torneadas, fortes, de quem caminha bastante e sobe e desce muita escada. cada vez mais me entendo, me respeito e me aceito. o bom e o ruim de mim andam juntos e já não tenho mais do quê reclamar. porque apesar de tudo, apesar da saudade que rasga o peito, apesar do amor que parece tão distante e tão difícil de encontrar, apesar do trabalho sempre com uma novidade, com uma surpresa, com algo me desafiando e, apesar da geladeira vazia e a falta de vontade de ir no super mercado, o disco continua girando, as páginas do calendário vão passando, o sol e a chuva vão alternando no céu e eu vou vivendo nessa minha roda gigante cheia de emoções. 

bloco de notas

as luzinhas coloridas piscam nas sacadas vizinhas. 

o calor chegou enfim, a lua é crescente e em uma semana os vinte e sete vem me parabenizar. ontem, hoje, amanhã. tudo assim tão rápido. as filmagens acabaram, o coração acalmou, a paixão continua. ela, a música e a quíron raspando a porta do quarto. cheiro de novo, gosto de antigo. parece que eu já sei de tudo mas não quero acreditar. parece que eu não sei de nada. não é conforto, não é fuga. é o agora chegando ou talvez seja só eu respirando profundo e com calma. talvez seja ela e a ameaça do que vai acontecer. ou talvez não aconteça nada. talvez seja uma mordida de gato no pé, miados noturnos, ou eu que não paro em casa. que não sinto mais tanto e que quando rola uma folga sinto tudo junto assim que nem sei. é uma mistura de alegria, satisfação e medo. como se não desse pra acreditar. o vazio sumiu. a solidão virou boa companheira quase rara, quase necessária as vezes, e nem tanto. o cansaço incrivelmente não veio hoje e nem o vinho branco gelado, nem o filme romântico sessão da tarde, nem os barulhos da augusta ou o som de batedeira da vizinha ajudaram o sono a vir. é tanta coisa. e tanto amor. é tanta profundeza e as imagens e os textos e eu querendo me encontrar e descobrindo que eu estou bem aqui, bem viva, sentindo tudo com uma consciência absurda que até assusta. 

ai tempo, senhor tempo, tic tac tic tac, daqui a pouco é amanhã e eu ainda não parei de pensar. daqui a pouco o galo canta e mais um dia cheio de surpresas nasce. daqui a pouco o sonho acontece, o coração palpita, a pele arrepia e tudo vai parecer se encaixar. se o sono deixar, se o sono chegar, e se eu deixar o amanhã pra depois... basta esperar. tudo vem. lindamente. tudo vem.