a noite era sua companheira e a solidão necessária por vezes. era preciso fugir do caos e dos dramas alheios e se trancar na sua toca novamente. voltar para casa. que casa? sim, os textos continuam os mesmos, assim como as inseguranças, os sentimentos e as afobações. a vontade de fazer mais continua e a pergunta nunca cala: o que ela está fazendo aqui? porquê senhor tantas cobranças e pontos de interrogação? o lado de lá se encontra cada vez mais lindo e aqui a dúvida eterna de estar fazendo a escolha certa ou não... certo, errado e a puta que pariu! perdão pela força da expressão, mas ela sente enorme prazer em dizer palavrões as vezes... se sente cansada também de buscar e correr e lutar sei lá eu porque... não sabe porque escreve, não sabe porque estuda, se sente perdida e sem papel higiênico no banheiro... é um absurdo! assim como a louça suja na pia e os pedaços de lixo atirados pela casa. lava as roupas para se sentir mais organizada e volta para a toca de bicicleta para que possa ver a lua crescente e lembrar o como é bom sentir a brisa da noite... sonhos malucos à perseguem e à despertam a las cinco e pico de la mañana... isso são horas señore? porquê essa pobre criatura não pode ter pelo menos uma noite tranquila com a cabeça vazia? porquê os pensamentos insistem em lhe perseguir e as preocupações lhe fazem questionar o agora que está tão bom e cheio de empreendimentos? uma amiga alegre e querida está no hospital... vinte e quatro anos e uma vida linda pela frente... tantos porquês sem respostas e não estar lá ao seu lado lhe enviando sorrisos e mensagens de amor lhe corta o caração e lhe parte a alma... que merda! ainda assim sabe que tudo vai dar certo e que em breve estarão juntas tomando uma cerveja e gozando da boa vida porto alegrense. mantém a esperança sempre ao lado e o otimismo no peito lhe mandando boas mensagens, lhe dizendo que a vida é linda e como é bom estar aqui onde quer que seja. bem hippie mesmo, bem paz e amor... quer distância dos problemas e das complicações. quer uma vida tranquila e facinha como merece uma velha senhora com seus sessente e picos e lá vai pedrada. quer viver sua juventude tardia e sua velhice precoce, quer respirar o vento frio dessa primavera gelada e poder sorrir ao pensar em tudo que está passando. e assim vai, uma pedalada depois da outra, skypes intermináveis e a pia que insiste em berrar ao seu lado. a caridade lhe persegue e que venham todos os que necessitam de amor usufruir do seu colo de mãe pronto para ajudar sempre... e que continue tendo braços e pernas e sorrisos que lhe acalmem o coração quando a saudade e as dúvidas batem forte. e que o mantra se mantenha, que o verão venha e que junto com ele venham as conquistas em todas as áreas possíveis e inatingíveis. evoé, ojala, oxala e para o alto e avante, sempre! besos!
27 de março de 2012
21 de março de 2012
Francis, tu as tant de chose à dire...
Francis caminhava pela cidade ensolarada com seus óculos escuros e sua jaqueta de couro. passava pelas lojas coloridas e respirava o ar da primavera. resolvera sair da sua toca depois de quatro meses enclausurado. quatro meses frios e cinzas. saiu da escuridão do seu quarto escuro marcado pela saudade. nas paredes fotos do lado de lá, cartas de amigos jamais respondidas, bilhetes das noites regadas a vinhos e boas gargalhadas, anúncios e imagens do que gosta, do que gostaria de fazer, viver, sentir, amar... terminara um longo relacionamento e as marcas dela ainda se encontram no seu corpo... nas paredes da casa, no cheiro que vem da cozinha, no vento que entra pela janela... eram dois jovens românticos com feridas passadas, inseguranças e olhos no futuro. comiam sushi todos os domingos para curar a ressaca, bebiam uns bons drinks e divagavam durante horas sobre a vida, a arte, a poesia, o passado, o futuro e o presente. sobre o tempo. o tempo era um dos seus assuntos favoritos e acreditavam que este caminhava em uma rua paralela, admirando outras paisagens que não as suas. tinham medo do amor, da dor, de sentir de mais ou de menos. de sentir. mas sentiam extremamente lá no fundo um prazer imenso de estarem juntos, mesmo que de formas diferentes. discutiam, choravam e por vezes se questionavam se aquilo tudo era verdadeiro ou se não fora somente um sonho bonito... terminavam e voltavam e no meio desse redemoinho de sentimentos o tempo ia passando... Francis falava demais, ia para o trabalho sorridente com o gosto do café ainda na boca... de noite comia morangos e bebia um vinho branco enquanto se preparava para mais uma noite de sexo incrível com ela... ela era calada, observadora, tímida... o admirava com seu olhar penetrante e lhe escutava contar os causos do seu dia. riam, sorriam, gargalhavam. gozavam da alegria por todos os cantos da casa, entre as cobertas bagunçadas e as velas apagadas na sala. mas Francis nunca se sentia satisfeito... queria ir, viajar, voar, conhecer, degustar e apreciar outros cantos e paladares. ela por outro lado não o prendia, não o fazia se sentir seguro e jamais pedira para que ele ficasse. eram tardes e noites agradáveis. passaram-se alguns meses de festas intermináveis e encontros à luz de velas e ele se foi. foi para o lado de lá, onde as línguas são muitas e o frio assusta até os mais fortes. foi para respirar outros ares, ver o que iria acontecer, o que iria sentir e se encontrar ou encontrar o seu canto no mundo. passou por momentos incríveis e por horas a saudade lhe pegava de uma forma tão forte que o melhor era aceitá-la, senti-la e depois deixá-la ir... como uma gaivota que vai passear no inverno e que volta para enfeitar a cidade na primavera. junto com a primavera e as gaivotas veio a alegria e a vontade de fazer algo, de viver. ainda não sabe muito bem o quê, mas já comprou uma bicicleta e agora vê tudo de perto, de dentro. caminha tranquilo, sente o cheiro das flores e guarda no bolso esquerdo da jaqueta todas as lembranças boas que ela lhe deixou... ainda se encontram nos seus sonhos e revivem um pouco daquela linda ilusão. já o bolso direito está sempre aberto para que outras como ela possam entrar... entrar, sair, passar, amar... porque no momento ele está aberto a todas as possibilidades e sem pressa espera tudo de bom que há de vir.
6 de março de 2012
titubeando entre os agoras
sentada em um quarto escuro à luz de velas escuta um homem lindo (líquido, derretendo) de pele negra tocar e cantar suavemente músicas românticas... que saudade de sentir o cheiro do verão e de rir à toa com os velhos amigos... projetos, sonhos, filmes, clipes, contatos. ela pegava o seu celular e produzia tudo. encontros em bares, em casas, em ruas vazias com árvores verdes. trabalhos, arte, cinema, teatro... tudo junto reunido como uma sopa de letrinhas psicodélica deliciosa. give me your love. ali, aqui, lá, acolá. pourquoi no? pequenos momentos de eterno prazer, lembranças que vem e que vão. amores que ficam guardados para um dia quem sabe voltar a sentir, tocar, beijar, amassar. olhos brilhantes no agora e lágrimas que caem sem pedir permissão. intrusas salgadas como o gosto do mar que ela a tanto tempo não sabe o que é. não se esquece nunca, tem uma memória incrível e repete as histórias como se tivessem acontecido ontem, anteontem, semana passada... tão longe e tão perto. as vezes parece que está logo ali, no quarto ao lado, programando o próximo encontro, a próxima festa ou o próximo projeto. unir, reunir, agregar. queria todos juntos no frio, no calor, no colorido da cidade preta e branca, nas descobertas, nas alegrias e nas tristezas. até que a morte os separe. dramática, claro. irresistível evitar o drama. será a mesma para sempre e o tempo passa, tudo muda e tudo permanece exatamente igual. passa um mês, passam dois, três, quatro... dorme acompanhada e seu quarto agora tem o dobro do tamanho, duas janelas grandes e o banheiro ao lado. quente, frio, morninho. diz que vive o hoje e o agora mas na verdade está sempre no amanhã. rápida, difícil de alcançar. três passos para esquerda, três para a direita, dá uma voltinha e pluft! sumiu! ela é assim: vai e volta e vem e traz e não sabe muito bem aonde vai parar, só sente e segue caminhando em direção à luz neon cintilante que pisca no final do corredor.
1 de março de 2012
da brisa gelada da neve que cai
levanta-se da cama desanimada, dessa vez o sonho estava bom. toma um café forte para acordar e escreve em seu mais novo computador pink. na janela vê tudo preto e branco, a neve caindo. frio de novo, de novo e de novo. está farta do inverno, nenhuma novidade. os pássaros brancos voaram de volta para o Brasil, levando com eles os sorrisos alegres e a companhia agradável. dias intensos em família, amigos que vão, novos desconhecidos que chegam. o primeiro dia do mês não poderia ser mais agradável. dia de pagar as contas e de encarar a brisa gelada de montreal. o dia tinha sido igual aos outros e talvez daí viesse o acúmulo de vida. sentir, sobretudo sentir. o silêncio da casa era cortado por canos estridentes que berravam de quando em vez... ela carregava consigo um livro da Clarice, aquela que voltou sem nunca realmente ter ido. vestia meia-calça cinza, uma blusa laranja colorida e um casaco verde trazido de lá para acalentar seu peito nas manhãs frias. sentia frio nos pés e sem saber porquê estava sem meias, desnuda, com uma feupa cravada ali no calcanhar esquerdo. essas coisas não a incomodavam. cortou os cabelos de novo e os deixou um pouquinho mais vermelhos, mesmo que por pouco tempo gostava de mudar. queria mudar a casa, mudar os quartos, organizar tudo novamente, de uma forma diferente. sonhava acordada com a primavera chegando, as árvores amarelas e as flores brotando. desejava ver a grama verde e os esquilos gordinhos saltitando pelo parque. ela abria a mão de quando em quando e deixava um passarinho subitamente voar. voava sobrevoando a cidade entre as nuvem brancas de neve, depois dava uma volta pelo verão brasileiro, abraçava amigos, dançava um pouco pelas ruas e antes que caisse a primeira gota de suor voltava tranquilamente para sua toquinha querida. tudo permanecia igual e ao mesmo tempo cada novo dia era um novo dia. profundo. se perdia entre as palavras e as línguas. pedia socorro aos cinquenta e cinco dicionários guardados em sua mochila pesada. os óculos de grau que nunca fizeram diferença em sua vida agora pareciam não funcionar, olhos cansados da tela do computador. caminhou pela noite fria um dia desses e descobriu um cinema ao ar livre, com poltronas vermelhas em plena saint denis. a cidade estava louca, todos borachos, coloridos, dançando e cantando... montreal de repente se tornara uma cidade super populosa e o frio parecia no molestar nadie... de onde surgiu tanta gente? foi em uma festa num corredor de uma estação de metrô, ouviu músicos cantarem e por ali ficou até que o efeito de toda aquela loucura passasse... ou não... acredita que o efeito nunca tenha passado e os seus dias maintenant tem sido doces e brilhantes. que seja doce, repito todas as manhãs ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. a noite veio e ela continuou a respirar no mesmo ritmo estéril. mas quando a madrugada clareou o quarto docemente, as coisas saíram frescas das sombras, ela sentiu a nova manhã insinuando-se entre os lençóis e abriu os olhos. sentou-se sobre a cama. dentro de si era como se não houvesse a morte, como se o amor pudesse fundi-la, como se a eternidade fosse a renovação.
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