26 de setembro de 2011

que seja eterno


de repente do riso fez-se o pranto silencioso e branco como a bruma, e das bocas unidas fez-se a espuma e das mãos espalmadas fez-se o espanto. de repente da calma fez-se o vento, que dos olhos desfez a última chama. e da paixão fez-se o pressentimento, e do momento imóvel fez-se o drama... de repente, não mais que de repente. voou por esses céus de porto alegre como que redescobrindo a sua própria cidade, ao lado de anjos iluminados e sorridentes que lhe fizeram olhar com outros olhos as ruas e calçadas que já estavam gastas na sua vista cansada de velha senhora de vinte e um anos. a cidade brilha, cheiro de primavera no ar. os dias passam rápido e quando se vê a partida bate na porta e um novo turbilhão se aproxima. ela caminha depressa, em uma estrada perigosa e cheia de curvas... sem tempo de parar, sem tempo de dormir. o tempo, tempo... sempre escasso, sempre tão rápido, sempre tão pouco, tão incontrolável... queria o tempo do seu lado de vez em quando e não nessa brincadeira eterna de gato e rato... hey! Sr. Tempo, take it easy!... é engraçado como é difícil escrever quando tudo está bem... as palavras lhe parecem banais e bobas e a cabeça não consegue se concentrar em uma só coisa. tem pensado muito, vivido muito... muito, muito, muito! tudo tão intenso e tão confuso e um nervoso estranho no peito. é como se estivesse ligada no 220W. é como se tivesse que aproveitar cada instante... o medo anda distante. ainda bem! não tem mais medo de perder tudo. o tudo logo será nada e será tudo intensamente. levará na bagagem os amores e os amigos, porque é só isso que importa. irá começar do zero, se redescobrir, se encontrar. não que esteja perdida... não que um dia tenha se encontrado... e não que tenha a pretensão de logo logo se encontrar, assim tão cedo, tão jovem. não. muitos nãos em uma mesma frase vindas de alguém que está tão acostumado a dizer sim. sim! sim, Sr. Tempo, passe bem rápido porque a expectativa é grande e a vontade é de voar e ir de uma vez por todas! pluft!

7 de setembro de 2011

não se trata de decepção amorosa...


a música parou de tocar e fez-se o silêncio. fugiu apavorada das palavras não ditas e dos olhares atravessados. lembrou do passado e quis voltar a ser só. sozinha eu me seguro, mas você chega e eu danço... você sabe de mil truques pra me jogar do abismo. queria se proteger, queria evitar o fim que sentia estar próximo. sempre teve dificuldades com finais... dos livros que lia poucos eram tocados nas últimas páginas, e os poucos tocados a deixavam decepcionada. os fins sempre eram tristes ou então solitários. se sentia crua, bege e sem cor. faltava-lhe o brilho e o coração palpitante. depois de dias de solidez as lágrimas começaram a cair novamente. se sentia fraca, com medo. medo de falar tudo o que gostaria, medo de falar as palavras erradas. medo de ser incompreendida. estava cansada. gastava as energias em noites de despedidas. amava os amigos, sorria e com eles se sentia bem. mas sem surpresa também se decepcionava com alguns e voltava a repetir as velhas frases e as velhas reclamações. no fundo todos continuam os mesmos. deveria esperar menos das pessoas. e as pessoas não deveriam lhe dar tantas expectativas. não vivia em um mundo imaginário, mesmo que lhe soasse interessante. tinha os pés no chão e por horas, dependendo da situação, tinha os dois pés atrás, virados e desconfiados. aprendeu a duvidar, a não acreditar e a sofrer menos. aprendeu a não levar as coisas tão a sério, embora devesse repensar essa última parte. sentia como se um vento tivesse passado e levado embora consigo todo aquele encantamento das noites de verão. abria o guarda-chuva e caminhava no meio da multidão. procurava por olhos conhecidos e desconhecia os olhares que via. não queria pensar besteira, não queria desacreditar naquilo tudo que sempre lhe pareceu tão bonito. mas a multidão caminhava tão apressada que nem notava a pequena menina de olhos arregalados virados para o céu. a chuva caía leve e tornava o silêncio menos doloroso. fechou o guarda-chuva e continuou a caminhar. sentia as gotas tocando sutilmente o seu rosto. sentia o molhado gelado. o cinza do céu lhe parecia bonito... quase neon. e as poças refletiam os postes de luz que pouco a pouco acendiam. o dia virou noite e ela não queria voltar para casa. que casa? sentia que não era de lugar nenhum e que não tinha para onde voltar, ou ir. não estava maluca. nunca estivera tão sã quanto naquele instante. tinha total consciência do todo ao seu redor, do porquê estava sentindo tudo aquilo e de como fazer parar. mas não sabia explicar. não sabia em que língua traduzir. queria dizer tudo só com um olhar. estava cansada das palavras e as palavras estavam cansadas dela. pensava demais. sentia demais. caminhou assim sem rumo por algum tempo, sempre na chuva. não sentia frio. e quando os pés já estavam cansados repousou o corpo em uma poltrona de algum teatro do centro da cidade... e ali ficou... respirando arte.

"não se trata de decepção amorosa, e sim de decepção com os seres humanos".
frase que muito ouvi no espetáculo "O Mapa" do Teatro Geográfico

2 de setembro de 2011

das cartas não lidas

se levantou na manhã ensolarada. a única depois de dias de escuridão. vestiu a camisola e caminhou até a beira da praia. queria sentir o áspero da areia nos pés e depois limpá-los com a salgada água gelada do mar. levou consigo as cartas que nunca havia entregado e treze garrafas de vinho vazias. garrafas esvaziadas nas noites frias de porto alegre. noites de luxúria, de gargalhadas, de música, dúvidas, silêncios e lágrimas. noites de tarot, de magia. uma porção de lembranças bebidas de gute gute em taças e copos de vidro rachados... há mais ou menos um mês havia decidido se mudar para a casa da praia. levara consigo uma mala pequena, somente com roupas leves e confortáveis, cangas e nenhum sapato. não queria que nada lhe prendesse os pés. queria estar preparada para um vento forte que pudesse passar por lá e levá-la consigo. releu carta por carta. as palavras eram bonitas, bobas por vezes... porém sentiu um imenso orgulho de si mesma... e uma tristeza por tudo isso que morreria calado. ela era como um ponto de interrogação, como uma janela aberta pro ar. queria sim ser feliz ao lado de alguém, mas só a sua felicidade não lhe interessava. queria ver os sorrisos, queria ver os olhos brilharem. queria dividir. gargalhadas compartilhadas são muito mais gostosas. e ela já estava cansada... cansada das mesmas histórias, cansada do redemoinho. treze cartas para três amores que se apagaram com o passar do tempo. ao som das ondas do mar ela guardava cada carta dentro de uma das garrafas. antes disso as lia em voz alta, como se fossem uma oração. chorava, sentia falta de ar, e ria ainda com os olhos molhados das lágrimas. sentia arrepios e tudo aquilo era como um momento mágico, como uma viagem de avatar, como se sentir conectada com cada grão de areia, com o céu azul e brilhante, com as nuvens que dançavam sob sua cabeça... era como fazer parte daquele lugar. ali ela se sentia em casa. se sentia planta, se sentia bicho, se sentia sal. sentia os pés afundando na areia macia e o mar que suavemente indo e vindo cantava uma canção serena... olhou pra frente e ficou admirando o horizonte, o sol lhe queimava o rosto e depois das ondas mais profundas ela só enxergava um imenso branco cintilante... o mesmo branco de quando era acordada de um sono bom e os raios invadiam a janela iluminando o corpo nu em cima da cama. a água batia nos pés, suave, refrescante... as ondas a puxavam e o vento a empurrava. tirou a camisola e depois de um leve arrepio saiu correndo mar à dentro. sentia a água nas coxa, no ventre, nos seios... sentia-se leve, flutuando. era como se lhe carregassem. ficou ali por um tempo. as ondas haviam parado e conseguia ficar deitada sendo levada admirando o céu. respirou fundo e se sentiu completa. ali naquele momento ela não precisava de mais nada. estava satisfeita... mergulhou.