28 de agosto de 2011

brinde à infância

era uma menina agitada, espevitada. passava o batom vermelho nos lábios, bagunçava os cabelos crespos e sorria exageradamente para as fotos. um sorriso amarelo, de orelha a orelha. os olhos pequenos, quase fechados, pareciam de uma pequena japonesa-índia-loira. gostava de ir para a creche, de brincar com as outras crianças. brincava tanto que por vezes não dava tempo de chegar no banheiro para fazer xixi... a cada mês que passava escolhia uma nova melhor amiga. se sentia segura. até o dia em que a deixaram de lado e teve que suportar à si mesma. uma vez sentou num formigueiro e chorou coçando as bolotas vermelhas que surgiam e ardiam. outra vez caiu do escorregador enquanto fazia uma competição boba com as outras crianças. queria vencer, adorava desafios e ficava furiosa quando as coisas não eram como ela gostaria. quebrou a perna um dia e ninguém acreditou, pensaram que estava fazendo cena... era uma filha única mimada e solitária. até o dia em que um alemãozinho apareceu na sua vida. um serzinho pequenino com quem ela poderia brincar e ensinar todas as coisas maravilhosas que gostaria que tivessem ensinado para ela. ele seria que nem ela... não. seria melhor que ela. com o passar do tempo foi descobrindo que ele e ela não tinham muitas coisas em comum. ele não gostava das suas brincadeiras, não gostava dos seus filmes... não era educado, não a tratava bem e ainda por cima fazia seus pais brigarem com ela. Sentia ciúme, se sentia abandonada. depositou todas as suas expectativas em uma criança e quis fazer dele o seu boneco perfeito. não deu certo. assim como não deu certo sua carreira de dançarina de jazz... depois de meses de aulas e ensaios foi excluída da apresentação de fim de ano com a desculpa de que não haviam meninos suficientes para fazer a coreografia e ela acabaria ficando sem par... patético. tentou jogar futebol por um tempo. era uma boa zagueira e se divertia atrapalhando as jogadas do outro time... até que um dia uma bolada lhe atingiu o rosto e caiu com tudo no chão, vermelha e sem ar. depois do acontecido resolveu largar dessa vida, não havia sido feita para apanhar das outras meninas... tentou escrever, ganhava todos os concursos de poemas da escola... a escola era pequena, sua turma tinha mais ou menos uns dez alunos e desses dez no máximo três participavam do concurso. fazia teatro e isso era o que lhe dava mais prazer. era quando ela realmente se sentia à vontade e satisfeita. sonhava em montar uma peça e fazer turnê pelo Brasil inteiro. queria viajar pelo mundo, ser livre. viver de arte e de amor. dizia que com dezesseis anos iria morar sozinha, que não se casaria nunca e nem teria filhos. talvez um dia adotasse uma criança, mas lá pelos seus trinta quase quarenta anos, sabe? era leal, ingênua e confiável. tinha a sua ética e a sua fé. acreditava nas pessoas e tinha esperança de que pudesse melhorar o mundo um dia. com o passar dos anos foi levando alguns tombos no caminho, pontapés nas costas e tapas na cara. hoje agradece à todos que de alguma forma contribuiram com os seus "fracassos". é tão bom poder ver as coisas com outro ponto de vista. amarrava os cadarços do tênis, colocava a mochila nas costas e entrava animada no carro. havia sido uma criança feliz.

7 de agosto de 2011

dear brigitte


raios e trovões! a chuva que vem lá de cima bate, molha, berra... grita nessa noite de domingo quente, de pôr do sol bonito, de manhã chuvosa. tantas temperaturas em um só dia, tantos céus, tantos ventos. é como se viajasse em um barco turbulento, em mares revoltos, inquietos. ela derruba o café na mesa e bagunça a casa toda. as cobertas se transformam em uma obra de arte. vanguardista talvez, clássica jamais. algo parecido com marta minujín, uma artista plástica que ela descobriu em uma de suas andanças por buenos aires, quando pensava que essa era a cidade que lhe acolheria. pega o carro e dirige pelas ruas vermelhas da cidade ensolarada. não almoça, não pára. se despede da sua querida brigitte e agradece por todos os momentos incríveis que ela lhe proporcionou. foram dois anos de aventura, viagens, amores e amigos sentados no banco do carona, contando histórias, chorando, dando risada, cantando catto, madonnas e otto. carregou porcos em seu porta-malas, assim como objetos de cena das peças e filmes em que trabalhou. atravessava a cidade guiada pelo seu piloto automático, a sessenta, setenta, oitenta por hora. gostava mesmo era de pegar a estrada e ir. só ir, dirigindo e curtindo a vista. foi assaltada, guinchada, multada, algumas tantas e tantas vezes. enfim, tinha história pra contar. se despedia da sua companheira, assim como do conforto de seu banco macio, assim como da facilidade de poder ir e vir de onde quisesse e quando quisesse. voltaria a ser uma pedestre como em quando sua juventude descobriu as maravilhas e horrores do transporte público de porto alegre. a distância. a tranquilidade. ao mesmo tempo se despedia também da cidade, e em grande estilo. nada melhor do que se despedir sentada em um banco de ônibus podendo admirar à vista. poder caminhar entre as ruas do bom fim, cidade baixa, centro, sem se preocupar com os percursos e caminhos. poder olhar o céu, as pessoas, as ruas, o caos, com os fones de ouvido escutando bem alto algo que nem lembra mais que exista no seu mp3. lhe assustava a ideia da noite, e de ter que voltar para sua casa tão longe na ponta sul da cidade, lá onde agora é moda ir no fim de semana, lá onde se acredita ser o futuro de porto alegre. lhe consolava pensar que tinha amigos, amigos queridos que lhe ofereceriam abrigo nas noites de indecisão, nas noites em que quisesse ficar, nas noites em que voltar e fugir para o seu refúgio distante não lhe soassem tão interessante quanto continuar e seguir no ritmo frenético do furacão da cidade. estava satisfeita com o rumo das coisas, pela primeira vez sabia onde tudo isso iria terminar. terminaria indo. indo prum lugar absolutamente desconhecido por ela, mas que soava incrível aos seus olhos, ouvidos e paladar. nhac! gostava de não saber o que aconteceria, gostava de não planejar, de se deixar ir... continua a mesma, porém agora sem sua fiel escudeira ao seu lado. mas uma hora tudo chega ao fim e ela anda muito bem acompanhada ultimamente. anda se acompanhando, se respeitando e se entendendo. sobreviverá e guardará na memória os bons momentos vividos, porém nunca sem pensar nos próximos melhores que ainda virão. escutava o som da chuva e tentava deixar os olhos descansarem em mais uma das noites em que os pensamentos lhe invadiam a cabeça e lhe faziam perder-se entre lembranças e planos bons para uma semana que se inicia... e amanhã terá sol, ela pensa.

3 de agosto de 2011

ventos que vem e vão


pegava os livros velhos e empilhava um a um com muito cuidado na estante. cabelos curtos, unhas roídas, olhos atentos e confusos. mudava a ordem, lia e relia, procurava anotações, frases, palavras. me oferecia um café e se rendia a mais um cigarro. sentada na janela olhava-a por entre as frestas de sol que entravam. chovia lá fora, mas um raio de sol insistia em iluminá-la. aquela fase repentina de amor intenso a estava incomodando. sentia as pernas moles, o peito satisfeito e uma dor lhe cortava a garganta. falavam sobre a vida, histórias do passado, vergonhas e lembranças. a cada dia uma nova descoberta... tornaram-se íntimas. as palavras saiam com facilidade. ela era pequena, com um sorriso tímido e um olhar malandro... silenciosa por vezes... profunda demais. eu falava alto, besteiras, poemas, ria, derrubava o copo, sujava a casa. não sabia reagir aos elogios e me sentia intimidada quando sem querer o olhar dela cruzava com o meu. se entendiam na cama. muito bem, obrigada. aliás, não só na cama. na sala, na cozinha, no banheiro... enfim. eram como crianças que descobrem o que é o amor e como ele pode ser leve e tranquilo. não queriam problemas. se mudaram para uma cidade distante há uns tempos atrás. outro país, outra lingua. levaram na mala os bilhetes anotados nas noites de solidão e saudade, algumas balas de goma e meias para aquecer os pés. a caixa de fósforos ficou no apartamento, junto com a taça de vinho. prometeram parar de fumar e não beber todos os dias. fumava escondida no banheiro enquanto as borboletas voavam perdidas entre a fumaça negra. olhava as fotos nas noite de frio e insônia. e escrevia textos meramente inspirados na vida, com um pouco de criatividade. lançava segredos e publicava-os como se fossem pedras preciosas. desligava o computador e tentava deixar o sono vir...

encontrei esse texto perdido por aqui, entre alguns rascunhos que em outros tempos não tive coragem de publicar. engraçado, hoje tudo parece tão mais simples.
27 de setembro de 2011