29 de março de 2011

porque palavras são como gotas

ventos e brisas. quentes, mornos e gelados... semanas que começam como terminam e que terminam como começam... gripe, febre, frio... suor, calor... teatro, foto, filmes... pessoas queridas... os dias têm sido intensos, as noites nem sempre na minha cama... o cansaço, o silêncio, a alegria... parar é difícil as vezes. sorrir é fácil. me falta ar, me dá vontade de berrar, sair voando correndo... ficar quietinha e descobrir onde vai dar tudo isso... não sei. não posso me deixar levar, mas sinto os dias me levando, sem controle, sem saber de nada... um nada luminoso e lindo, como uma luz de neon iluminando a calçada escura.
as palavras me caem como gotas de chuva cinza cintilante. molham minha pele, escorrem pelo corpo... cabeça, boca - geladas e suculentas - seios - arrepios - barriga, coxas - joelhos cortados de quedas sem explicação em noites onde a bebida estava presente... ando caindo ultimamente, sim, de quatro no meio da rua... patético... é como se de repente uma fragilidade tivesse me pegado, me sacudido de um lado pro outro, me dado uns tapas na cara e me largado meio tonta na andradas de noite... é como se eu fosse um bicho aprendendo a caminhar, sem controle dos pés, das pernas, das pedras e dos buracos... no fundo sei que a culpa é das botas e da minha insistência em usá-las mesmo não estando tão frio por aqui... eu já quero o inverno, mas minhas pernas parecem incrivelmente gostar do verão... e assim vamos as duas insatisfeitas, pois nem inverno e nem verão, estamos no outono e um tempo húmido nojento persegue os nosso dias... dias de porto alegrenses provincianos caminhando em linha reta sem olhar para os lados, sem respirar a brisa, sem ver o sol se pôr... mentira. eles reclamam de coisas pequenas e assistem tv sentados no sofá... mas não quero falar sobre isso. quero colocar tudo numa panela gigante e deixar fervendo por um tempo, até evaporar.




26 de março de 2011

lágrimas secas de mulheres mudas


eu te levaria pra jantar sushi e depois iriamos em um motel... e te daria balas de goma de sobremesa. te falaria das coisas que eu penso, das coisas que eu faço, recitaria poemas - bem brega mesmo, só pra te seduzir - te prometeria viagens, sorrisos, amizade. te beijaria com vontade, com sede, por todas as partes, de cima pra baixo e de baixo pra cima, por todos os cantos, curvas e buracos... te olharia nos olhos e te faria gozar, devagar e profundo... um gozo contido, com medo... medo de ser muito, medo de se entregar... o teu cheiro iria ficar em mim por algum tempo, e o teu gosto também... eu te colocaria no meu carro e te levaria pra casa ao som de chico, caetano, bethânia ou madonna. tomariamos um vinho e começariamos tudo de novo, até esgotar. eu te olharia dormir e admiraria o teu sono profundo, o teu silêncio, teu descanso... lágrimas secas de mulheres mudas sozinhas em um quarto mal iluminado... tu não me falaria coisas bonitas e nem me daria balas de goma de sobremesa... tu não me ligaria no dia seguinte... tu fugiria correndo de todas as coisas lindas que eu te disse... tu teria medo da felicidade, medo de não corresponder, de não estar à altura de algum sentimento mais profundo e forte... medo de que essa paixão súbita durasse apenas até a próxima semana, como um produto com prazo de validade. acordariamos felizes e satisfeitas - é incrível como uma boa noite de sexo faz bem pra alma de uma pessoa - tu colocaria a tua roupa, eu faria um café - forte, sem açucar - comeriamos juntas uma torrada deliciosa, ainda com os olhos inchados e cansados de quem acaba de despertar de um sono bom. tu iria embora, trabalhar... e eu ficaria ali, sozinha... arrumando tudo, apagando sem saber todos os vestígios que tu havia deixado. ascenderia um incenso na esperança de que o teu cheiro fosse embora junto contigo... mas na noite seguinte ao deitar a cabeça no travesseiro tudo voltaria e o teu rosto e a tua presença me perseguiriam por um bom tempo... o teu silêncio acabaria comigo e eu iria me arrepender profundamente de um dia ter te levado para comer sushi, de ter te dito coisas bonitas e de ter te colocado no meu carro, na minha vida... eu me arrependeria de ter te mostrado e meu eu profundo e querido, porque enquando tu te continhas e gozava com medo eu me entregava e gemia e berrava bem alto, como um grito que vinha de dentro das minhas entranhas... como quem conta os seus segredos mais secretos. eu iria ao fundo do poço e voltaria rapidamente, faria as unhas, pintaria o cabelo, talvez até encarasse uma nova dieta. ficaria um tempo frígida, sem querer saber de ninguém, só tendo noites casuais e evitando ao máximo conhecer novas pessoas... até que um dia eu encontraria uma pessoa maravilhosa, incrivelmente parecida contigo... comeriamos sushi e iriamos em um motel, falariamos da vida, dos planos, das mágoas. ela me entenderia, e eu acreditaria que dessa vez seria diferente... como num ciclo vicioso, como num redemoinho em baixo de uma cachoeira... eu sigo girando... girando e girando...

16 de março de 2011

das coisas que ficam dos dias que vão


por entre as pedras cristalinas e geladas caminhava e mergulhava sem saber onde estava pisando, como que procurando naquela realidade adversa encontrar o seu eu perdido e querido. estava bem. respirava aliviada ao som dos sabiás e sentia o cheiro forte de fogo... e a imensidão da água que passava ao seu lado cantando versos de amor... nada lhe importava naquele momento. sentidos aguçados em uma noite vazia e escura. foi como guiada por passos amigos. caminhava sem ver... ia como que levada pela mata, por algum bicho luminoso que lhe dizia que por ali as coisas seriam melhores, por ali ela encontraria aquilo que tanto procura. foi quando nesses dias de paz e introspecção ela se depara com tudo que sempre esteve na sua frente. as pedras continuam no caminho, mas dessa vez são tão leves que ela pode chutá-las para bem longe, mesmo sabendo que logo logo as encontrará novamente. ela fala coisas incompreensíveis e pensa que as profundezas do ser habitam a sua alma. engano seu. esteve vazia nesses dias. não escreveu, não leu. só sentiu. sentiu tanto que por muitas vezes o silêncio era a melhor explicação. e por entre as brumas ela foi indo, descobrindo por trás de cada nuvem um novo ser, um novo morro, um novo mar... como se tudo fosse um sonho sem fim... foi isso, foram dias de sonhos sem fim... e sem explicação... ela me dizia que tudo aquilo era muito bom, que não queria voltar... mas que tinha que voltar. voltar... até hoje não sei se ela voltou, é como se estivesse chegando a cada dia e ao mesmo tempo é como se nunca tivesse ido... ir e vir... estar... estar sendo... como partículas de moléculas intransponíveis e caóticas... vai indo, voando pra longe e pra perto do sim. de si.

4 de março de 2011

ojos amarillos em uma noite insone


chuva salgada nos meus olhos tão tristes... é como se as noites de insônia conseguissem acabar com a leveza e a alegria que me trouxeram de volta... é como se tudo voltasse em uma onda gigante e me levasse pro fundo do mar de novo... de novo eu ia ter que fazer uma força imensa pra subir, pra respirar... é como se eu não conseguisse parar de ler clarice, é como se eu fosse buscando sempre algo novo dela pra ler... é como se a angústia fizesse parte de mim e fosse necessária... é como se eu não estivesse mais acostumada com essa vida e de uma hora pra outra tivesse desaprendido a viver. é como se sofresse calada e sozinha as amarguras de quem sente demais... ao som de mercedes sosa, maria bethânia e omara portuondo agora escrevo tranquila em uma manhã ensolarada, nem parece que ontem à noite tivemos uma briga interminável... o sono e eu... acho que foi como uma explosão de sentimentos acumulados... vontade de parar de pensar... parar de sentir... sentimentos incontroláveis sem sentido nenhum, como uma tpm louca na época errada... não. não foi tpm. não foi sem sentido. foi só uma tristeza forte que me pegou de surpresa em um tempo de alegrias... em uma noite sem fim onde o cansaço me venceu e me fez finalmente parar e sonhar.

"havia experimentado alguma coisa que parecia redimir a condição humana, embora ao mesmo tempo ficassem acentuados os estreitos limites dessa condição. e exatamente porque depois da graça a condição humana se revelava na sua pobreza implorante. aprendia-se a amar mais, a esperar mais. passava-se a ter uma espécie de confiança no sofrimento e em seus caminhos tantas vezes intoleráveis." C.L.